A Conferência - Final
Olha, se vai me libertar me liberte de uma vez por todas, se não vai deixa eu voltar para minha garrafa com tranqüilidade, porque não agüento mais esta novela mexicana, vocês dois adoram fazer drama de tudo, que saco! Disse o gênio meio aborrecido.
Acho que ele tem razão, Alexandre, porque se demora tanto, porque hesita? Diz Hilal com aquele sorriso de quem faz uma pergunta sempre sabendo a resposta.
Vocês são terríveis quando concordam, na última vez que concordaram assim me fizeram atravessar o centro a pé de madrugada, hehehe. Sabem que se demoro a deixar algo é porque quando deixo fica lá em um passado remoto que raramente visito. Meu amigo djinn, entenda que sua amizade nestes anos todos me foi muito cara, sua ajuda muito preciosa, se hesitei até agora não é porque quero um escravo, faz tão pouco tempo que entendi que era um cativo, mas porque estimo sua companhia. Comento eu, meio sensibilizado, com aquela sensação estranha que sinto quando é Hilal que escreve.
É fácil não sentir o peso dos grilhões quando eles atam outros pés que não o seu, Alexandre. Disse Hilal com aquele tom de censura muito firme mas muito terna.
Não precisa ser tão duro, Hilal, ele também foi tantas vezes escravo sem o sentir também, então sua crítica não é justa. Diz o gênio e sua defesa me comove.
“Vil como ter um escravo”, eu disse uma vez, mas sou obrigado a dizer que entre nós, meu amigo djinn, nunca soube quem era o escravo e quem era o senhor. Quantas vezes não fui tomado por esta sua misantropia, por certo gosto de fausto, por maravilhar os outros com nossos talentos, quantas coisas não escrevemos só para sermos admirados e não para realmente dizer algo. Quem é o mestre e quem é o escravo?
Então o liberta e liberta a você próprio. Diz Hilal, com aquela voz de comando que ele sabe que me irrita, é quase uma provocação dele, um teste se estou pronto pra minha liberdade.
Curioso que neste momento eu penso acima de tudo nos meus poucos mas tão seletos leitores. Quantos deles admiram o texto do gênio e não o meu, não o de Hilal. Curioso que os textos de Hilal estão sempre entre os mais lidos, mas, enfim, não é um cálculo preciso porque sempre divulgo mais os textos dele, talvez porque confie que eles são mais sinceros, mais úteis.
Engraçado que também os melhores amigos que fiz por meio dos meus textos chegaram quase sempre através dos textos de Hilal. O estilo do gênio – gongórico, me disse um amigo faz bem uns 20 anos – tem outro tipo de admirador. Nos últimos tempos até o Alexandre tem conseguido se sobressair, ele que sempre foi o mais apagado, mesmo quando o Hilal não era uma presença tão viva, acho que foi justamente o destaque dos três, cada um com seus dilemas, valores, perspectivas e estilos que permitiu que cada um se desenvolvesse. Enfim, não me arrependo do momento em que decidi dar a cada um o seu papel, até agora há boatos sobre um quarto personagem que mantém um blog secreto em algum canto da blogosfera.
Pego a tampa de cobre da garrafa do gênio, com o selo de Salomão gravado em ouro. Jogo no chão e quebro com uma pisada forte;
Está livre, meu amigo, segue teu destino!
Obrigado, saiba que destes séculos todos os últimos anos estiveram entre os mais agradáveis – disse o gênio enquanto se evaporava em uma nuvem verde que tomou o caminho da janela e sumiu aos pouco.
Hilal olhou-me com um olhar de amizade, aquele seu sorriso discreto mas profundo. Agora eramos só eu e ele na tarefa. Corro para escrever o desfecho da história e quase me surpreendo em achar que sem o gênio meu estilo ficou mais límpido.

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