Conferência

Curioso que dentre os três personagens que formam a equipe que redige meu blog – que comentei no post Eu, Eu Mesmo e meu Blog – aquele que desperta a maior simpatia dos leitores com os quais troco correspondência é justamente o djinn que mantenho aprisionado em uma garrafa e que me serve de ghost-writer. Mesmo sendo um tanto cético, um misantropo, às vezes tendo um ar de fastio, desperta simpatias talvez por conta de sua prisão causar empatia em tantos outros espíritos que se sentem igualmente presos a grilhões como os dele.
A estes leitores só posso dizer que também sinto esta empatia, em vários momentos pude compreender a exata sensação do djinn preso na garrafa, fazendo algo que por muito tempo gostou, mas que com o passar dos anos ou séculos foi ficando aborrecido. Como ele sinto que as palavras não são mais adornos de um texto, mas são uma revoada de flechas procurando uma boa batalha pra lutar e um objetivo a alvejar.
Resolvi, então convocar uma conferência da equipe para discutir o assunto e a imaginei mais ou menos como descrevo abaixo.

“O djinn, que não tem outra coisa a fazer na vida, foi o primeiro a chegar. Assentou sua imensidão verde e fumacenta, em uma enorme almofada bordada a ouro que fez surgir, acendeu o narguilê e esperou tempo passar lendo a última tradução definitiva das Mil e Uma Noites, ainda mais diferente das anteriores do que dos fatos relatados que o gênio tem bem presente na memória. Deteve-se logo em uma das primeiras histórias de Sherazade, sobre o gênio aborrecido com os séculos na garrafa resolve castigar ao invés de premiar quem o liberta, justamente um dos argumentos que usaram para que eu o libertasse de vez, com certa gargalhada maldosa ele pensa que talvez valesse a pena não ser um djinn tão bonzinho e nos seus olhos se vê claramente que a sua raça é mesmo do fogo...
A porta se abre e chega Hilal, com passos firmes, não com as suas vestes brancas e largas de sheikh, mas com seu traje negro de guerreiro, não fosse o turbante negro o apanágio do seyeds e certamente ele também estaria com um. O djinn, que perde o amigo mas não perde a piada, ia fazer um comentário, mas se cala com o olhar terrível que Hilal lhe lança. Apesar de tantas diferenças não deixa de haver amizade entre personalidades tão distintas.
O que fará quando for livre, pergunta Hilal, puxando assunto enquanto eu não chego.
Se eu precisar prestar contas disto, então é porque não é uma liberdade verdadeira, não acha? Responde o gênio entre desafiador e ponderado, entre uma baforada e outra do narguilê.
Salomão o prendeu por um motivo, não acha que devo saber se o motivo ainda existe ou desapareceu?
Já não sou necessário aqui, há semanas não escrevo mais, fico melhor na companhia dos meus, você é quem mais sabe disto, se teme a ausência do contraste então é como aquele monge de Gibran sobre o qual escreveu estes dias.
Hilal enrubesce – e eu que achava que isto só acontecia comigo – porque na verdade ele está meio acostumado à presença do djinn, a todos aqueles debates noturnos no qual ele defendia a disciplina rígida e elevada, o amor incondicional, a justificação da elite por conta apenas dos deveres maiores enquanto o gênio para provocá-lo falava de Nietzche, de tantas seitas gnósticas para as quais a virtude era um impiedade. Ele leu em dezenas de textos sagrados o quanto este apego é uma ilusão, mas também teme ter de fazer todo o trabalho sozinho.
E o Alexandre não chega - reclama o djinn – justo ele que é pontual de forma tão irritante, precisamos resolver isto logo, quem sabe esta noite já não estou entre os meus...
Depois de tanto tempo entre os humanos não sei se vai conseguir viver entre os seus, pondera Hilal com um certo olhar de compaixão para o djinn, ainda mais terrível que o olhar da sua ira santa.
Os humanos são mais interessantes que os djinns, totalmente imprevisíveis, meio malucos, nisto concordo. Não foi um deles, Lobato, que disse que o homem era um macaco que tinha caido da árvore de cabeça e daí passou a agir de forma inusitada? Os humanos são assim, tudo na natureza segue seu curso, mas os humanos são realmente livres, ainda que quase sempre utilizem sua liberdade para as coisas mais cretinas, em especial escravizar-se. Mas com os séculos até eles se tornam chatos, porque se repetem, estão sempre reclamando de tudo, em especial das bençãos que recebem.
É injusto, se seu mestre o liberta é porque o poder de tê-lo cativo não o tenta mais. Diz Hilal tentando animar o djinn com a esperança de liberdade.
E se não me libertar é porque ainda tem medo de que você e ele não consiga fazer o trabalho. Mas também pode ser por arrogância, pela sensação contrária de que não precisa mais de mim, nem quando tiver que escrever um texto para alguém sobre algum assunto chato no meio do tumulto. Até poesia ele anda se achando capaz de escrever nestes dias, sem nenhuma ajuda nem minha nem sua...
Hahahahaha, nunca tinha visto um djinn com ciúme de seu mestre, no fundo também teme perder a função, não acha?
Bom, em relação à média dos humanos só posso dizer que ele é interessante e até sua companhia é agradável às vezes. Também você já foi mais chato, hoje acho que chegou a uma postura mais ponderada.
A energia da disciplina é proporcional à disposição de aplicá-la, não acha? A voz de comando é necessária quando se é um recruta. Mas há tempos não disputamos, não percebeu? Por isto mesmo me preocupo sobre como conviverá com os seus, pode-se sentar aí com ar de fastio fumando seu narguilê e lendo com cara de pena um pobre texto humano, mas no fundo se acomodou nesta vida e nem sente falta de viajar pelos céus noturnos e bisbilhotar a conversa dos anjos.
Quando se viveu quase três milênios em uma garrafa não é fácil reencontrar os espaços amplos, mas não há dúvidas que mais cedo ou mais tarde reacostumo a viver em liberdade. E você, não tem medo de também ser despachado algum dia?
Não sabe o que diz, mais fácil que o Alexandre se vá, do que eu. Será que não entendeu nada desta história toda?
Mas não se esqueça que ele não precisa de você para escrever poesia...
Onde moro não há diferença entre poesia e prosa, se ele escreve poesia é só porque ás vezes olha pelo buraco da fechadura de minha casa.
Não tem ouvido o quanto ele tem falado sobre não precisar de intermediário, sobre a necessidade de se falar diretamente com Deus para escapar às armadilhas. Assim acaba também perdendo o emprego.
Decididamente ou não entendeu nada ou está se fazendo de desentendido e perdendo seu tempo tentando me irritar.
A porta se abre e entro, sinto o clima um pouco pesado na troca de olhares, sempre densa, entre Hilal e o djinn. O Gênio se espreguiça nas almofadas e me olha ansioso, tentando descobrir no meu rosto a resposta aos pedidos pela sua libertação. Hilal, como sempre impassível mas nunca frio, sentado com as pernas cruzadas me lança um olhar terno para tentar me acalmar.
Boa tarde, desculpem-me pela demora, vocês sabem como ando cheio de providências a tomar para esta nova fase da minha vida...

Não quero fazer suspense ou novela, mas já me estendi demais hoje, assim o desfecho fica para amanhã. Por sinal aguardo sugestões.

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