Chaves de Lobato
Quantos assuntos eu teria para falar hoje por conta de conversar e trocar correspondências com os amigos e debater em algumas listas. Mas o tempo é curto e assim tenho de centrar-me em um só ponto. Das várias questões, então, escolho comentar o livro infantil de Monteiro Lobato, A Chave do Tamanho, talvez uma das mais radicais histórias dele. A idéia me surgiu depois de ver na Comunidade do Orkut dedicada a Monteiro Lobato (http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=367610) uma curiosa interpretação de que esta história seria devida ao fato de Lobato ser discípulo de Nietzsche. Aproveito o texto e o tempo também para finalmente fechar o comentário sobre Ortega y Gasset da semana passada que acabou ficando em aberto.
Em primeiro lugar se tomada em seu sentido literal a história está entre as mais atrozes da literatura não apenas infantil, mas de qualquer tipo ou gênero. Afinal no livro boa parte da população mundial morre quando tem seu tamanho reduzido e tal genocídio ainda se dá com requintes de crueldade, com pessoas morrendo devoradas por porcos, inclusive por Rabicó, sufocadas no meio das próprias roupas que não encolheram, atacadas por insetos, de fome ou susto. Emília, justamente a responsável pela hecatombe, diz em vários momentos que a humanidade ficou bem melhor com o novo tamanho e satisfeita com a limpeza dos menos adaptáveis e por pouco a humanidade não fica daquele tamanho minúsculo mesmo.
Que a intenção de tal história, mesmo que não fosse dirigida a crianças, deva ser vista literalmente e que o próprio Lobato – reconhecido humanista - realmente queria o extermínio de quase toda a raça humana é uma idéia que só podia mesmo passar pela cabeça de quem, como Hitler, admira Nietzsche. Não houvesse o risco de alguém estranhar o anacronismo e diriam que também Swift – o qual é referenciado inúmeras vezes em inúmeras obras e de quem Lobato era reconhecidamente admirador - baseou-se no profeta alemão para escrever Modesta Proposta para que os Filhos dos Pobres da Irlanda não Pesem sobre seus Pais ou sobre o Pais. Ironia e sátira, como as piadas, não se explicam, ou o interlocutor entende ou nem vale a pena manter diálogo.
Além desta questão do absurdo da interpretação literal para qualquer um que conheça a obra de Lobato há outros argumentos. Tentar filiar Lobato a qualquer “sistema” ou considero discípulo de qualquer pensador é um disparate saído de alguma torneira de asneiras, nem de si mesmo ele pode considerar-se discípulo porque não tinha a preocupação de ser coerente – e muitas vezes fala sobre isto. Se há alguma referência a Nietzsche na obra de Lobato, particularmente não me lembro, ela só pode ser discreta e, como pensador que rejeitava os sistemas, é possível achar referências aos mais variados pensadores.
Não deixaria de ser curioso que um adepto de Nietzsche vertesse obras de cientistas e pensadores humanistas, como Wells, para a literatura infantil, na qual se diz, pro exemplo, que a diferença entre os bandidos, piratas, saqueadores e os grandes guerreiros, tão ao gosto daqueles que admiram Nietzsche, é apenas uma questão da quantidade pilhada. Se há um personagem “nietzschiano” em Lobato é o Elias Turco, citado várias vezes como exemplo do uso da força bruta, da violência, da falta de moral.
Igualmente não sei de onde se concluiu que Emília é amoral, algum protótipo de super-boneca. Para mim ao menos parece bem claro que a falta de limitações de Emília deve-se a ela considerar as regras existentes inadequadas para as finalidades. Ela comete erros, engana e oprime diversos outros personagens, em particular o Visconde, mas faz isto pelo ímpeto do que é novo e certamente não é algo que fica “recomendado” na obra. Ela é em grande parte a personificação do capitalismo selvagem e modernizante que vai se expandindo e controlando as coisas, uma boneca-de-negócios ao melhor estilo dos bussinesman americanos.
Também é fato mais do que notório a postura pacifista de Lobato e toda a preocupação que há na sua obra, ainda mais na infantil, em criar aquilo que hoje se chama de “Cultura da Paz”. Para não falar que Lobato era amante da democracia sim, apenas considerava que democracia de verdade não era, no Brasil, mais do que uma rosa artificial de papel que copiava modelos corretos da democracia parlamentar européia sem ter a mesma base histórica e solidez daqueles, tornando-se portanto apenas um simulacro de democracia, na qual as pessoas não são eleitas por seus méritos, sabedoria e reconhecimento público – para utilizar o conceito que ousei nos outros posts, sem ter Autoridade. Entravam, isto sim, “por debaixo da lona como os garotos no circo”.
Criada as condições de educação, cultura, saneamento básico, cuidados de saúde então existiram as condições para fazer com que as eleições não fossem mais um “índice de papeluchos jogados num recipiente por uma plebe ignara”. A dificuldade, portanto, está nas condições do povo e na incapacidade e ilegitimidade dos dirigentes, jamais em alguma teoria heróica. É verdade que há até elogios a Primo de Rivera no mesmo texto, mas como uma reação necessária às forças que impediam a modernização.
É nesta questão da modernização, da industrialização, da necessidade de adaptar as instituições a um novo mundo que está surgindo que está, no meu entendimento, a chave da Chave do Tamanho. Em um mundo no qual as mudanças desencadeadas pelas forças empreendedoras são rápidas e drásticas ou o Brasil se modernizava ou se extinguiria. Evidente que cada um pode fazer a leitura que quiser, inclusive eu.

Comentários
Um pequeno trecho
Que se ache algum trecho de Lobato fazendo grandes elogios a Nietzsche eu até posso entender. A hipérbole é bem comum no autor e qualquer um que tenha trabalhado em jornais e fazendo resenhas sabe bem como é isto. Mas para trecho encontrado cirurgicamente é certamente possível encontrar uma dezena de outros dizendo o contrário.
Se alguém conseguir demonstrar, por exemplo, que há qualquer perspectiva de conciliar um trecho como o abaixo (do artigo Krishnamurti, publicado em Na Antevéspera) com qualquer versão ou sabor do pensamento do profeta alemão eu dou o braço a torcer que nada conheço de Lobato, menos ainda de Nietzsche:
"A Moral da religião nova, provisoriamente chamada de espírita, participará das duas mais belas morais existentes, a de Buda e a de Jesus, ecletismo que a fará superior a ambas".
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