Chá com djinns
O djinn – aquele que até outro dia eu mantinha prisioneiro e o obrigava a escrever por mim - veio me visitar e tomamos juntos um chá. Mesmo eu, que já estava acostumado sua sua carantonha verde, confesso, me surpreendi com sua aparência desagradável, mas tentei disfarçar, sem muito êxito. Quem me conhece pessoalmente sabe que eu não sei mentir.
Perdeu o hábito de ter um djinn em casa, não é? Vendo que não conseguia disfarçar minha repugnância.
Imagina, é sempre um prazer rever alguém que foi tão próximo por tantos anos. Digo eu com meu péssimo mentirês, meio consternado e preocupado em não provocar a susceptibilidade desta raça de fogo e ar, portanto cheia de orgulho e instabilidade, que são os djinns. Ibn 'Arabi garante que todos eles são do signo de sagitário e ás vezes eu concordo com o grande mestre.
Meu primo Iblis manda lembranças e reclama que há tempos não o atende nem dá retorno aos recados dele? Diz o djinn entre gozador e sério.
Com ele não quero conversa, nunca quis, aliás já estou farto de djinns, bons ou maus. Opsss, espero que ele não se ofenda, mas poxa vida, às vezes tenho o direito de uma vida mais prosaica, sem tantas intromissões do maravilhoso e do fantástico.
Você é muito racional!
Estou aqui sentado com um gênio, tomando chá e fumando narguilê, ouvindo ele me dizer que tem recados do inferno e sou muito racional, o que é que falta, um tapete mágico? Só queria uma vida mais comum, que não tivesse que andar simultaneamete por tantos mundos ao mesmo tempo.
Diz isto porque está meio chateado, estressado, mas gosta mas gosta mesmo é destes outros mundos. Comenta ele meio irônico.
Gostava mais quando achava que eles eram só imaginação, conforme vão invadindo a realidade vão ficando aborrecidos. Digo eu meio chateado com os rumos de uma conversa que não me agrada.
Mas justo agora que anda fazendo tantos progressos, nem eu que vivo a séculos por tantos lugares falaria tão bem destas coisas.
Já foi o tempo que você me conquistava com estes elogios, viu, adulações de escravo não me valem de nada.
Já não é mais meu senhor, se te elogio é porque merece.
Me adulas porque talvez sonhe em vingar-se, não acha? Mas não vai funcionar, já me libertei destas minhas vilezas.
Ah é, mas esta sua escolta de djinns, pelo menos fico satisfeito de saber que precisou de quatro para fazer o meu trabalho, hehehehe.
Em primeiro lugar nenhum deles escreve, nem falam comigo, os proibi, só aceitei porque Hilal insistiu muito, mas mesmo assim quero que eles sumam rápido. Digo com um certo olhar de indignação com os quatro djins que guardam as minhas portas com alabardas prateadas com uma estampa de lua crescente.
- Por falar em Hilal, por onde anda aquele chato, achei que fosse tomar chá conosco. Pergunta o djinn olhando para os lados como se o procurasse.
Deve ter percebido que ando aborrecido com todas as coisas que não são deste mundo e ficam á minha volta e só vem aqui fazer seu trabalho e some em silêncio, mas estive na casa dele ontem, logo depois que voltei da oração do primeiro dia do mês de rajab.
Se anda cheio de nós porque o visitou?
Uma coisa é eu resolver ir quando preciso buscar alguma inspiração, ver coisas novas, outra muito diferente é quando elas me visitam, ainda mais em horas impróprias e sem aviso. Se os vários mundos estão separados não eram para se misturarem assim.
Quem construir as pontes foi você, ora essa. Diz o djinn já meio indignado com minhas referências mais do que diretas ao meu desagrado com a presença dele.
Construi as pontes para que eu passasse por elas e trouxesse um pouco desta beleza e destas maravilhas para cá, em doses homeopáticas, como diz o chavão. Não para que ficasse todo este trânsito por aqui.
Bom estão em vez desta escolta mal-encarada Hilal devia ter é lhe mandado guardas de fronteira, hehehehe.
Mas é isto mesmo que eles são, não percebeu? Só deixaram você entrar porque precisava falar com você, saber como anda, se está se cuidando e para dizer um adeus de uma forma mais adequada do que da última vez, como amigos e homens livres. Mas se voltar sem avisar não será rcebido.
Ouvido atento e boa vontade - Disse o gênio meio cabisbaixo e sem o mesmo ar de deboche – curioso ver o quanto de você vinha de mim e como está mais confiante e menos crédulo. A propósito, aquela coisa de Iblis foi uma brincadeira, você sabe, né...
Pois foi uma brincadeira de mau gosto, como quando este seu parente infeliz é tão cínico não relato do Sagrado Alcorão sobre a Hora, quando ele ri na cara dos seus seguidores e diz que ele jamais compartilhou da crença deles de que era um associado do Altíssimo.
Destas imagens todas de meus primos pobres a que acho mais engraçada é a daquele conto russo, do diabo que de tanto assistir aos sermões se converte, vai limpando a Igreja e por final resolve ir pregar no Inferno, provocando muitas gargalhadas nos outros, que tomando a pregação por brincadeira se divertem imitando-o, alguns muito melhor que eles. Diz o gênio mais agradável.
Pregar é sempre mais fácil do que dar o exemplo, e quem dá o exemplo não precisa pregar porque tem luz nas suas ações, não acha?
Não se acha atormentado com esta idéia da necessidade de ser bom? Acho que isto te angustia demais da conta, sabe, por isto fez estas pontes todas por onde as maravilhas transitam. Como todos os humanos tem muita pressa, ainda mais agora que eu me fui, não devia ter tanta ansiedade, se preocupa com as pequenas coisas, uma de cada vez, é melhor ser um humano apenas decente – o que não é tão difícil visto que os padrões de vocês estão muito baixos – do que ser um mau santo. Perde batalhas porque só quer lutar as grandes guerras, ao invés de treinar nas pequenas até ter habilidade suficiente, é pro sito que anda chateado com o maravilhoso.
Olho meio espantado para o gênio, meio surpreso com toda esta sabedoria e moderação de onde só costumava ouvir deboches e ironia. Não gostei dele ter me dito isto, porque tinha a ver com coisas que eu pensava, assim bastou ouvir estas palavras de alguém cujas intenções eu suspeito para que minha crença nelas se abale.
Hahahahahahaha – gargalha o gênio adivinhando meu pensamento pelas minhas feições, sou péssimo mentiroso, como disse – acabo de te ensinar duas lições pelo preço de uma, não se lembra do que disse Ghazalli: não procura saber quem diz a verdade, mas conhece antes a verdade e saberá em quais bocas ela anda?
Estou dispensando aconselhamento espiritual de seres que vivem em outros mundos e segundo outras lógicas, outras verdades, meu amigo, mas agradeço a intenção. Só achei curioso que me diga o mesmo que o xeque me disse ontem. Só Hilal me diz outra coisa...
Já reparou que quando eu estava por aqui confiava muito mais nele do que confia agora? Antes ele era o seu queridinho dos três, agora desconfia dele, aposto que foi até a casa dele só pra ter certeza de que não ficava em algum abismo infernal. Quando eu estava pro aqui queria ser ele, agora que me fui só quer ser o Alexandre.
Desconfio sim, acho até que tenho motivos, acho que ele exacerba meu orgulho e até meu individualismo. Me dá uma certa sensação de poder com a qual não sei lidar bem porque achava que seria mais disciplinado.
Pois é, achou que todos os seus defeitos eram culpa da minha influência, né, pode falar a verdade. Agora está percebendo que até algumas de suas qualidades vinham de mim. Disse o gênio entre compreensivo e irônico.
Diz a verdade!
Esta sua angustia, meu amigo, é a sensação que se tem quando se é livre. Eu também passo por isto. Acho que não sinto falta de quando você me mandava escrever isto ou aquilo, pesquisar aquele assuntos, descrever algumas coisas da minha vida? Agora eu mesmo tenho de pensar não que fazer, por mim mesmo.
Hilal às vezes é cruel e em outras horas omisso. Ainda não sei bem o que fazer desde que me livrei de você.
Você gostaria de ser ele, de sempre saber o que fazer para ser correto, de não ter medo de errar, de ter sempre na ponta da língua a palavra certa. Eu sei, até eu sinto ás vezes inveja daquele equilíbrio perfeito dele. Mas isto também é uma escravidão, a guerrilha não é menos guerra porque tem poucos soldados ou visa alvos pequenos, é a luta que dá pra se travar. Com perseverança, com novos obstáculos a cada dia, tem os mesmos efeitos, é até mais difícil de ser derrotada. Não ouviu o que o xeque falou pra você ontem, sobre a cada derrota descobrir o que falou?
Anda me espionando? Pergunto eu espantado.
Na falta d que fazer e sem ter feitos amigos neste meu mundo eu observo você. Incomodo, mesmo quando sou discreto?
Incomoda sim, oras, e a minha privacidade.
Só fui com você até um lugar público, queria ver se ia mesmo, sei que evita estes lugares por conta de seu orgulho e vaidade, tem medo de ser repreendido, de ver que não é Hilal não.
Ando me curando disto, por isto mesmo este trânsito entre o fantástico e a minha casa anda me azucrinando. Tenho desejo de ser apenas Alexandre.
Já viu nestes dias todos o quanto precisa ter cuidado com as coisas que deseja, não viu? Ainda mais com toda esta sua escolta. Diz o djinn olhando de soslaio para seus primos ricos, como ele os chama.
Bom, isto não precisava me falar, né, por sinal foram estes desejos todos que me enfastiaram das maravilhas e me fizeram desejar o prosaico.
Muito bom ver você mais sábio, feliz aniversário. Disse o gênio e evaporou.

Comentários
Parabéns!!! Belo post. bjks
Parabéns!!! Belo post.
bjks
libertação?
Caro amigo, confesso que não tenho tido oportunidade de ler seus últimos textos mas hoje consegui arranjar um tempinho para dar uma olhada nesse. A sensação com que fico é que vc está a libertar-se no peso do passado. Será?
Grande abraço.
PS: vc está a fazer falta lá naquele reino...
É assim mesmo, quando
É assim mesmo, quando estamos nós libertando da escuridão da caverna, lembra? a luz do sol nós pede coragem, responsabilidade, mas não podemos deixar a ansiedade tomar conta , temos que caminhar devagar, com atenção vencendo um obstaculo de cada vez.
Libertação sim!
Me agradou muito essa visita do djinn. É assim que, penso eu, devemos lidar com nossas "instâncias pessoais", convivendo com elas e através desta convivência ir efetuando as transformações necessárias dentro de nós, paulatinamente, sempre paulatinamente, porque no mundo psíquico, que é justamente o mundo das maravilhas, tudo se dá paulatinamente.
Agora pudemos ver a sabedoria do djinn. Ele diz coisas importantes: "esta sua angustia, meu amigo, é a sensação que se tem quando se é livre"...
Acho que o próximo passo é conhecer mais a fundo a liberdade, estudar o que já foi dito sobre ela e sobretudo vivê-la, experimentá-la aos golinhos para não se afogar com ela.
Grandes e importantes novos tempos estes!
Concretude simbolizada
Teus poemas quiçá retratem um cotidiano forjado ou lapidado pela perspectiva de uma análise cheia de elucubrações intrasferíveis, pessoais - não exteriorizada no campo da própria habitualidade que meramente visualiso; mas que sabe transmutar-se na linguagem lírica dos símbolos. Escreves bem; talvez como os poetas selecionados pela Heloísa Buarque de Holanda na antologia da década de 90. És, portanto, alinhado nas concepções artística da escrita que temos reconhecido como pós-moderna. Nem pretendo inserir-lhe rótulos; ademais, são opiniões.
Abraços.
Viagem Noturna
"Minha fé é filha da dúvida, não da certeza", achei ótimo. Uma frase que resume bem meu ponto de vista em relação à fé.
Alexandre,seu blog é bastante interessante e muito tem contribuido para a minha compreensão de algumas coisas da vida.
Nostalgia das próximas horas
O meu relógio marcava exatamente meia noite quando senti que não podia mais parar...
É esse o efeito um tanto alucinógeno que busco na madrugada sem tua presença.
Despedidas sofridas, aquela saudade imensa de toda uma vida que ainda se tem pela frente. E eu me lanço no mar, navego na tua história, te procuro nas citações precisas e na dualidade sempre urgente de entendimento.
O que eu procurava, remexendo teus escritos? De verdade, era aquele momento em que, displicente, ofereci carinhos a um escritor e seus djins, sem imaginar que você me tomaria nos braços um dia.
Eu adoraria roubar uma das histórias das mil e uma noites e dizer que dormi por toda a vida até que um djin me deixasse à tua porta, mas não é verdade. Foi sim a minha vontade de desvendar quem de vocês me encantava mais que me aproximou, fez vencer as brumas, e com os olhos ainda ofuscados das maravilhas do outro lado da ponte, perceber que é aqui, deste lado onde você está, que eu quero ficar.
Tapetes Mágicos
Não consegui postar o comentário no Re-Flexos, então posto apenas aqui.
Impossível descrever a sensação dos instantes eternos nos quais o tapete mágico nos leva a mundos desconhecidos e grandiosos, terras nas quais luz e trevas se mesclam em eternos eclipses e templos belos e terríveis se erguem com os terremotos ao invés de se construir.
É maravilhoso saber que para além dos pântanos da realidade há recantos encantados nos quais se pode descansar do que é usual e monótono.
Um dia eu fui vários, em você sou uno.
Só posso dizer que tudo ocorre no momento certo!
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