Ceticismo e ingenuidade

Ouço todo mundo falar da importância da educação, dela ser a única esperança para o país, para o mundo. Ouço, confirmo, mas lá dentro de mim não acredito muito nisto. Sem dúvida a educação é ferramenta fundamental para compreender o mundo, porém não é suficiente para mudá-lo, até porque a própria finalidade dela é manter as coisas como estão, treinar as mentes a ver o mundo de uma única e determinada forma.
Não é à toa que os regimes totalitários dão grande valor à educação, que a universalização do ensino fundamental foi – e ainda é – uma bandeira “liberal e burguesa”. Não compartilho das teorias conspiratórias que vêem no descaso com a educação alguma estratégia manipuladora, assim como tenho certo desprezo pelos professores que acham que tornar seus alunos conscientes é incutir neles suas idiossincrasias políticas ao invés de fazê-los pensar por si próprios. Estes últimos, por sinal, me aparecem ainda mais criminosos que o Estado que falha em estender o direito universal á educação.
Não quer dizer que não ache que a educação não seja importante, é sim, claro que é. Mesmo quando tropeça, mesmo quando faltam mestres e temos de nos contentar com professores, mesmo quando as crianças vão a escola por conta da merenda, sempre é válido e é melhor que nada.
O erro é achar que isto é suficiente. Uma educação ideal ensinaria a criança a manter sua curiosidade e seu ceticismo. Lembro sempre da sugestão de Bertrand Russel de ensinar a história das guerras de acordo com as notícias de jornais diversos das várias nações envolvidas. Mesmo discordando dos céticos penso que só a partir de um certo ceticismo é possível chegar a alguma parcela da verdade, tanto quanto sempre temos de tentar ser ingênuos ao ler um livro ou ouvir uma lição, fazendo-o com boa vontade e desejo de ser convencido da verdade contida ali, antes de duvidar.
Nenhuma escola, nenhum professor, salvo no caso muito especial, será capaz de ensinar esta misteriosa combinação de ingenuidade e ceticismo necessária a buscar a sabedoria, mais do que o conhecimento. Contudo creio que todos nós nascemos com este espírito, com esta mistura dentro de nós, a perdemos com o tempo, com a escola inclusive, alguns poucos são talvez capazes de recuperá-la, a maioria pende para um ou outro lado, conforme a idade e conforme a vida.
Hoje em dia as pessoas falam muito e discutem pouco. É só observar. As pessoas descarregam um discurso, tem opinião formada sobre tudo, mas quase sempre nem são capazes de argumentar fora do roteiro pré-estabelecido como são incapazes de ouvir os argumentos do outro. Não falo nem da política, que deveria ser a busca do consenso através da razão e da argumentação e se tornou hoje mera torcida carregada de emocionalismo e espírito de corpo. Mas mesmo dos fatos do dia a dia as pessoas se apegam às suas certezas ou ás dúvidas que não tentam sanar – e que pro isto são certezas também, ainda que sejam certezas de não saber.
Eu vivo entre paradoxos, entre dúvidas que talvez jamais possa sanar. Um deles por exemplo, é não saber que opinião teria sobre a tecnologia. Sou um entusiasta da tecnologia, não me imaginaria mais escrevendo em uma máquina de escrever e jamais vi – nem tenho vontade de ver salvo por curiosidade histórica – uma pena e um tinteiro. Aprecio apesar de todos os pesares a vida moderna e a melhora geral das condições de vida que ela propicia à maioria. Não tenho saudades nem do passado recente.
Ao mesmo tempo sinto esta desumanização do homem, lamento o ritmo de vida que nos faz cada vez ter menos tempo para alguma coisa, lamento a perda das tradições e da sabedoria, vejo com desalento a fragmentação do conhecimento que produz cada vez mais especialistas em coisa nenhuma. Um reflexo disto é apreciar tanto os autores que viveram no período entre-guerras.
Creio que eles – em todos os campos – foram os primeiros – e quem sabe os últimos – a ver a modernidade e a tecnologia como coisas suspeitas e mesmo fatais, como sintomas de uma degradação do ser humano. Não é á toa que hoje eles comecem a ser recuperados, depois de algumas décadas nas quais descrer da tecnologia e da modernidade era uma heresia.
Os mais coerentes de todos eles, aqueles que me chamam mais a atenção é esta figura meio quixotesca que foi Ortega y Gasset, a figura mutante que foi Huxley e o aristocrata do espírito que foi Fernando Pessoa. Gasset vê o avançar de um mundo que decai, mas fica ali firme, mesmo sem muita convicção às vezes, de que ainda é possível fazer algo, que através da educação políticas das massas é possível ainda salvar algo e avançar para outro patamar. Huxley, por sua vez, mesmo desanimado com o que vê por todos os lados esforça-se por acreditar e mesmo com sua utopia triste e destinada ao fracasso ainda enxerga um homem capaz de salvar-se. Pessoa, por seu lado, vê na arte e na sensibilidade a perspectiva de libertar-se da mesquinhez do mundo. Cada um a seu modo é tanto cético como ingênuo, alguém que quer acreditar apesar de tudo.
Os três são conservadores a sua maneira, não daquele conservadorismo marcado pela defesa de privilégios – preconceito que faz mal a tantos outros de seus contemporâneos – mas daqueles que fazem a distinção dos deveres, que vêem diferenças entre as pessoas não como algo que lhes dê mais direitos, mas como um dever adicional daqueles que são agraciados com dons especiais. Curiosamente são estes quase sempre as maiores vítimas da educação, aqueles que ou são inibidos em seu ceticismo e ingenuidade ou tem seus talentos direcionados para alguma área específica do conhecimento, empobrecendo seu universo, ou ainda que se perdem no meio da vaidade, do orgulho e da competição.

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educação

Lembre do ÚNICO pedido de Inácio de Loyola:
"Só quero uma coisa: dê-me a educação dos jovens".

Gostaria porém de colocar outra questão que´foi o problema de minha dissertação em 1988: educação formal x educação informal.
Para isso, antes vamos estabelecer o que quero dizer com educação formal: seria "uma intervenção deliberada e sistemática, com objetivos, metas recursos didáticos, instrucionais e INTENÇÕES mais ou menos definidos".
E, educação informal, como sendo "todas as informações, sinais, signos ou ações diretas ou não, deliberadas ou não, conscientes ou não, exercidas sobre o indivíduo, ao longo de dua vida que lhe permite situar-se em relação a um tema específico de forma contextual a seu mundo".
(Guidi,Sonia M.G.C.N.V.G."Contribuição para o Estudo do Papel do Educador Pré-Escolar na Formação da Identidde de Gênero".Dissertação de Mestrado,UFPr.Curitiba, 1988.
Estou, perdoe o termo, 'embarcando' em seu artigo, para tentar mais uma vez colocar a questão tão evitada da educação informal,isto porque, é óbvio após pouca análise, que em qualquer instituição, grupo ou meio, tem efeitos mais decisivos, profundos e permanentes que a formal, mesmo quando esta está inclusa naquela.
Q

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