Cegueira temporária

Para a luz dos meus olhos

Passei alguns dias meio cego. Não, não é metáfora não. Meus óculos se quebraram no sábado e eu estava sem óculos reserva nem a receita. Fiquei meio perdido com a dificuldade de ler, escrever, dirigir, sem condições de resolver o problema até segunda feira. Na segunda faço uma peregrinação tentando resolver o problema e acabo com uma lente descartável e provisória que se me deu uma visão parcial de volta acrescentou a irritação, física e emocional.
Da somatória disto e de outras pequena coisa cujo rol não é necessário enumerar veio outra cegueira, esta sim simbólica, metafórica. Aquela cegueira que nos impede de ver o real, que nos faz refugiar dentro de nós e de nossas ilusões. Gostaria de ver a cara de tantos amigos que me dizem sábio ao me ver em um destes ataques de idiotice.
Falei idiotice para distinguir bem daquele conceito de imbecil, sobre o qual às vezes falo por aqui. Mas para não gerar confusão diria que o imbecil que eu tento ser é aquele que tem consciência de não saber nada, já o idiota que às vezes desperta também não sabe nada, mas não tem consciência disto. Acho que a única utilidade do idiota é mostrar pelo exemplo infeliz ao imbecil o quanto ainda falta para que ele chegue ao completo desconhecimento do ilusório, único caminho para o real.
Só na terça consigo voltar a escrever, ainda com a cegueira metafórica. Ela não me impede de desejar no blog alguns poeminhas, alguns até que passáveis, as confusões mentais tem sempre alguma utilidade. Em um deles escrevo “o que me torna imperfeito é viver procurando a perfeição ao invés de apenas encontrá-la”, lendo hoje já desprovido de sabe-se lá qual impulso que me motivou senti toda a minha dissociação no período da cegueira, vi que o que menos enxergava era eu próprio.
Mas não escrevo para contar estas experiências, coisas que não servem a ninguém, nem a mim. Mas para aproveitar as lições da batalha perdida e assim traçar melhores estratégias para esta nossa eterna guerra ao nosso self. Conversando depois com a Cláudia - minha namorada e portanto alvo preferencial do meu self afinal é através dela e de nosso sentimento que o egoísmo do qual ele se alimenta vai sendo eliminado – vou vendo o quanto nada fez sentido, como se discutiu por nada,como estava repleto de medos sem sentido.
Mas, principalmente, como andava tão perdido na própria noção de tempo, em um passado cada dia mais distante, tentando travar não as lutas do momento, mas outras que não tinha enfrentado antes ou que tinha perdido e não faziam mais sentido serem lutadas. Esta sensação de estar em uma máquina do tempo, lutando contra moinhos de vento que afinal são adversários muito menos temíveis que nós mesmos.
Sempre imaginamos o nosso self, nosso inferno interior, como algum ser terrível. Acho até que às vezes ele deve tentar mesmo aparecer assim, afinal como animal que é tende a sempre aparentar a imagem mais assustadora possível como forma de dissuasivo frente a animais maiores. Embora sempre ironizem a expressão “cão que ladra não morde”, do ponto de vista zoológico é algo que tende a ser verdadeiro, porque se o inimigo se sente forte ele apenas ataca e pronto, se tenta nos assustar como um gato que eriça os pelos para parecer maior é porque na verdade quer nos assustar e nos fazer não atacar.
Imaginei o meu self sem estas artimanhas ontem, quando me despir de alguns destes medos que são a força dele em mim. Pareceu-me mais um menino assustado e sozinho, escondido em alguma caverna do passado do que algum cavaleiro negro ou demônio dantesco. Achei que a artimanha dele desta vez era aparecer sem disfarces, afinal é mais difícil combater o pobre garoto de olhos tristes e cheio de choramingos do que algum monstro.
E eu, um mau muçulmano, mas muçulmano, confesso que me lembrei mais do Bahgavad Gita do que do Sagrado Alcorão, da necessidade de lutar contra as ilusões, de destruir nossos medos e defeitos que são tão próximos como se fossem da família e saquei a espada. O resultado da batalha ainda não sei, espero ter vencido.

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