Cassandras e Prometeus

srubens114 Desde a época na qual a vocação e a profissão da política não se entremeavam, quando tentava apontar caminhos enquanto jornalista para a política, sentia que pesava sobre mim maldição similar a de Cassandra – a troiana que havia recebido a benção de prever o futuro e a maldição de suas previsões jamais serem acreditadas. Achei, então, de bom augúrio que na reunião do mandato parlamentar no qual atuo desta semana, a primeira na qual exerço oficialmente o novo papel de chefe de gabinete, tenha sido sugerida pelo deputado a leitura de um artigo referindo-se ao mito de Cassandra – o excelente artigo “Sob o signo de Cassandra” do diplomata Marcelo Dantas.

Meu novo papel tem em si o desafio de ser capaz de materializar numa estrutura eficiente os valores e conceitos antes formulados apenas como textos, como palavras. Mesmo parecendo paradoxal, às vezes é mais simples convencer grande número de pessoas distantes do que um pequeno grupo de pessoas próximas. Não falar a um público disperso e mais ou menos amorfo, mas a alguns poucos indivíduos com os quais se convive todo dia traz a grande responsabilidade de se viver o que se diz, de enfrentar as dificuldades concretas.

Escrever é sempre um ato aristocrático e individual, portanto autoritário. Mesmo quando se pretende convencer, persuadir, quando há diálogo, este diálogo é em certa medida falso porque sempre escrevemos para nós mesmos, antes de escrever para os outros – ao menos quando se escreve com sinceridade. Já a ação de dirigir a ação deve ser democrática, depende de elementos externos a si. O esforço de construir a governança requer a avaliação das forças e fraqueza dos outros – e ainda mais de si mesmo. A distinção entre autoridade e poder, sobre a qual sempre escrevo tanto, ganha uma dimensão maior e mais ampla quando se tem uma ao lado da outra.

Passei os últimos 25 dos meus 38 anos falando sobre como achava que devia ser a política, sobre a necessidade de construir o novo, ter a coragem de criar, ousar conceitos novos. Daqui a pouco tenho de romper as barreiras entre o idealizado e o concreto, não sem certa sensação desta síndrome de Cassandra ter sido deixada de lado, ao menos para um certo grupo que decidiu a esperança é possível, mesmo no cenário trágico.

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