Caquinho de espelho

“Os caminhos para Deus são tantos quantos são os corações dos homens” (dito sufi)

Gosto muito de uma imagem do poeta persa Attar segundo a qual Deus é um espelho que se quebrou em muitos pedaços e cada um ao pegar um caquinho e se olhar diz: “este é Deus”. Um dos muitos significados desta expressão tão repleta dos mais variados sentidos que toda vez que lembro dela me ocorre um novo é que a experiência do buscador é sempre solitária.
Há sem dúvida a necessidade de um mestre não tanto que oriente, mas que através da sua benção nos ensine a “esvaziar a taça”, a nos transformar na tábula rasa onde a sabedoria pode ser escrita. Engraçado como o silêncio é uma forma de ensinamento essencial em todas as tradições. Assim, pelo silêncio, ensinam as lições mais relevantes os sheikhs sufis, os mestres do Tao, os sábios do zen (lembrei-me do símbolo zen do mestre rasgando os livros), os sad-gurus do Vedanta Advaíta. A música que muitas vezes está presente só reforça o silêncio, afinal por não ter forma ela ajuda a nos desligar das formas.
Curioso que o que mais tive na vida de próximo de um mestre foi um professor ateu na Universidade. Ele me ensinou aquilo que livro algum poderia me ensinar, o quanto eu não sabia e como meu conhecimento, minha compreensão do mundo era falsa, lição que carrego até hoje, embora nem sempre tenha a sabedoria de lembrar-me dela. Falo dele, não só por questões sentimentais, mas também porque em seu ateísmo até militante havia uma devoção a um Ideal Elevado, que era o Conhecimento.
E é aqui que me detenho para falar deste caquinho de espelho do Altíssimo que sou. É nesta idéia de um ideal elevado que tento encontrar Deus tanto em mim como nos outros e nas suas ações. Aonde há esta procura de servir e dedicar-se, sem espera de recompensa ou temor do castigo, a este valor ali sempre se pode encontrar a presença de Deus – ao menos segundo a opinião deste caquinho aqui.
Sintomático que esta questão de libertar-se dos desejos e temores apareça em todas as tradições. Aparece em Santa Teresa d'Avila e São João da Cruz pedindo que Deus lhe feche as portas se ela procurá-lo por outro motivo que não o amor a Ele, aparece nos belos poemas de R'abia pedindo para ser atirada no Inferno se ama-lO por temor a ele, aparece na ênfase em libertar-se da ação dos hindus, enfim é uma fortíssima convergência de muitas tradições e – mais uma vez na minha modesta opinião – toda convergência aponta para o centro, para as camadas mais profundas nas quais o essencial está mais visível.
Novamente sou obrigado a repetir o que disse ontem, que a questão fundamental está na sinceridade, naquela sinceridade mais profunda que reside no coração. Schuon destacando a diferença entre as diversas formas religiosas consideradas pagãs e as ondas de neo-paganismo dizia que nos primeiros havia a pureza de intenção de adorar ao princípio elevado nos ídolos, enquanto no segundo há apenas o desejo de se obter algo. Vale lembrar, sempre, que Schuon viveu a maior parte do tempo entre os nativos americanos e em contato com xamãs desta tradição, a grande maioria de suas pinturas, por sinal, referem-se a esta tradição.
A cada vez que vejo uma disputa religiosa lembro-me de uma tradição islâmica. Moisés pergunta a um pequeno pastor o que ele está fazendo e ele diz que está construindo um abrigo no deserto para Deus, para protegê-lO do sol, do frio e dos animais selvagens. Moisés desanca o garoto dizendo que Deus não tem frio, nem calor e nem temeria os animais selvagens e o garoto vai embora chorando. Deus então adverte Moisés sobre ter afastado dEle uma pessoa que na sua maneira tentava agradá-lO.
Penso que a cada vez que atacamos a fé de alguém agimos como Moisés. Certamente há momentos nos quais há necessidade de enfrentar a hipocrisia e a simonia, como o próprio Jesus fez, mas é sempre uma guerra que deve ser travada sem ódio, não para condenar, mas para tentar fazer com que as pessoas encontrem seus motivos e neles percebam o erro. Nada sabemos sobre os caminhos que os outros trilham, nem sobre as engrenagens deste camelo cego que é o destino, então acho que cada um faria melhor esforçando-se por, como os mestres tradicionais, iluminar com o silêncio do seu exemplo. Evidente que esta é uma meta muito elevada para mim, mas conseguir vislumbrá-la, ao menos, como objetivo tão distante parece de alguma forma ser algo positivo.

Comentários

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Caquinhos...

Ontem fui a palestra da monja Coen no Templo Zen Budista em Pinheiros e ela começou a palestra dizendo que Buda está em cada grãozinho de areia do rio que agora não me lembro o nome...na verdade ele está em tudo. Lembrei-me na hora de como você começa o seu post, de como a minha mãe católica, espirita e sem religião alguma me disse que o conhecimento é uma coisa que ninguém pode tirar de ninguém, lembrei-me também que o psicólogo de vidas passadas e espírita Brian Weiss também disse para "evoluirmos" a única forma é através do amor, Lembrei-me de Jesus que disse ama ao próximo como a ti mesmo.
É realmente impressionante como certas coisas batem a nossa porta, não uma mas várias vezes e cada uma delas de uma maneira diferente, muitas vezes por estarmos em lugares diferentes, mas principalmente por estarmos diferentes.
Confesso que ainda preciso aprender muita coisa, agora que a través do amor eu sei que conseguimos ficar muito bem, agora qual caminho seguir, confesso que ainda não sei, preciso primeiro esvaziar a taça para tudo!

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