Buscar o evidente

Ditosos os fazedores de sistemas pessimistas! Não só se amparam de ter feito qualquer coisa, como também se alegram do explicado, e se incluem na dor universal. (Fernando Pessoa, O Livro do Desassossego)

Um de meus contos preferidos de Borges é “A busca de Averroés” - o preferido mesmo é “As Ruínas Crculares”, mas sobre este falo outro dia. Como sempre nos contos de Borges há muitas metáforas entrelaçadas ou dentro uma da outra. A principal delas é o drama do filósofo andaluz não sendo capaz de encontrar uma palavra em árabe para traduzir o sentido exato de “Tragédia e Comédia” em um texto de Aristóteles, já que o teatro não existia naquela sociedade. Como sempre não vou contar o desenrolar da história, nem a ironia contida nela.
Outra das histórias dentro da história é um debate sobre a validade das velhas metáforas, em especial a que designa o destino como um camelo cego. Se era a intenção de Borges ou não eu não sei, nem estou me incomodando, mas a associação das duas coisas pareceu evidente. Somos tão incapazes de compreender o destino como Averroés o teatro, porque é algo que pertence a outra esfera, nossa compreensão de tempo e espaço não só nos impede de ter a visão panorâmica para entender o sentido mais profundo das coisas como, ainda mais, de julgar a Deus ou ao Destino.
Sempre que me lembro de Averroés, ou ibn Rushd como é a forma original de seu nome latinizado naquela forma, lembro-me do diálogo entre ele – já sábio consagrado e idoso – com o jovem ibn 'Arabi ainda imberbe. Rushd arruma pretexto para que 'Arabi o visite porque esperava que as famosas visões que o jovem tinha confirmassem as suas teorias – em particular a noção de que as verdades da fé poderiam ser concebidas apenas pela razão, como ele relata na história de Hayy ibn Yakzan (O vivo, filho do desperto), náufrago que descobre por si só e pela razão as verdades reveladas.
Apenas três frases marcam o debate entre o deísmo extremo – aristotélico – do filósofo e o teísmo também extremo do “místico” (como sempre uso o termo entre aspas tanto pro não considerá-lo totalmente exato como para distinguir do avesso do misticismo que hoje se apresenta como tal). Rushd pergunta a 'Arabi “Sim”, 'Arabi responde “Não” e ante o pasmo e a palidez do filósofo ao ver que sua pergunta tinha sido perfeitamente compreendida o mestre diz: “Entre o sim e o não há um espaço no qual os anjos voam”.
Não é casual que Rushd seja o filósofo árabe preferido do ocidente. Só nas mentes ocidentais ele foi o vencedor do histórico debate com o ortodoxo Al-Ghazalli, só na historiografia ocidental depois dele ocorre uma decadência do pensamento (e note que uso a palavra pensamento e não filosofia) islâmico, quando na verdade ele atinge seu auge tanto com o próprio Ibn 'Arabi como com outros geradores de grandes sínteses (em especial entre o platônico e o pitagórico e não mais com o aristotélico que morre com ibn Rushd), como Suhrawardi e Mullah Sadra.
Mas o objetivo do texto não é falar da “filosofia islâmica” - e eu próprio costumo fugir a cada vez que vejo a palavra filosofia por conta dos sentidos que o termo toma hoje. Mas sim falar de algo cujo sentido ao mesmo tempo está acessível e oculto. Na história de Borges alguns garotos fazem uma representação bem debaixo da janela do filósofo, mas ele é incapaz de entender que naquela ação está justamente o sentido das referências ao teatro que ele procura, porque sua mente só consegue pensar no conhecimento como retido e aprisionado nos livros.
A despeito do nome de seu personagem, Rushd não está desperto,não consegue deixar que a intuição guie seus olhos, ora a Deus para que ele lhe revele o sentido daquelas palavras, mas quando sua petição é atendida através da encenação dos garotos abaixo da sua janela não pode perceber. Imagino que uma boa parte daquilo que se chama de filosofia ocidental (como se existisse outra) é como ibn Rushd, “O Comentador” - lembrando que Dante o coloca no limbo conversando com Aristóteles, esforçando-se por pensar só com a razão e o conhecimento discursivo, cada um colocando aquela imagem de Deus que já era distante no deísta Ibn Rushd um pouco mais distante até colocá-lo para fora em definitivo do campo do conhecimento.
Não me oponho a este afastamento por questões morais ou éticas, ainda que uma das conseqüências deste afastamento seja naturalmente, como disse Roger Garaudy, a desvinculação do “know-how” do “Know-why”, do saber fazer do saber porque fazer. Os efeitos nefastos deste processo são mais do que visíveis e um pensador tradicional diz, não sem certa razão, que a destruição de Hiroshima começou com o incêndio de Persépolis por Alexandre da Macedônia, discípulo de Aristóteles.
Porém, são efeitos, conseqüências. O problema em si talvez não possa ser demonstrado a quem não vê o sagrado, nem precise ser demonstrando a quem o enxerga, que é a ineficiência de qualquer busca do conhecimento que seja a busca da Verdade. Curioso que todas as tradições religiosas podem mostrar isto com uma clareza e em uníssono que só reforça a identidade desta verdade, mas a maioria das pessoas só consegue enxergar as distinções entre elas, que estão apenas na aparência.

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