A beleza nos une

Passava por uma galeria no bairro da Liberdade quando uma música me chamou a atenção por razões afetivas. Como em um desenho animado fui seguindo o som até encontrar a loja e comprar o CD que nem estava á venda. Houvesse em todo o CD apenas aquela música que me chamou a atenção e já seria válido a pena, mas como ele todo era interessante eis-me aqui escrevendo algo sobre música, assunto do qual entendo tão pouco.
É Alhambra, de Oliver Shanti com amigos e acompanhado da Royal Philharmonic Orchestra de Londres. Poderia falar da bela proposta do CD, das frases no book que me deram satisfação em ler porque há nelas conceitos muito familiares como “ser um construtor de pontes entre culturas em tudo que faz” ou “produzir uma música na qual os contrastes entre ocidente e oriente podem se fundir em uma unidade, tornando-se um todo”, do belo trabalho da Shanti records. Provavelmente em qualquer um destes comentários eu poderia me expressar bem porque falaria sobre coisas que conheço.
Mas devo ser fiel sobretudo aos meus próprios conceitos e assim como acho que a única arte reacionária é a arte medíocre e nem a melhor das intenções e a mais nobre das causas é capaz de salvar uma criação ruim, portanto se tenho de comentar algo é sobre o efeito da música sobre mim, mesmo nada entendendo do assunto, do que sobre o contexto na qual ela foi criada.
Acho uma pena que em nome das boas causas haja tanta gente desmoralizando a arte. Mas, enfim, isto é tema para outro debate. Na minha cidade ideal, ao contrário da de Platão, acho que seriam poucos os que a habitariam além dos que reproduzem a arte e a literatura – sim, eu sei que não foi exatamente isto que Platão quis dizer, mas não dá para discutir tudo de uma vez.
Sempre me lembro de uma passagem de Admirável Mundo Novo no qual o Dirigente Mundial fala ao Selvagem sobre o poder que tem as coisas belas por atrair as pessoas. Se me perguntassem sobre isto teria de dar uma explicação transcendental de que a verdadeira arte são alguns pedaços de um mundo superior, trazidos ou vislumbrados em alguma viagem de quem as produziu, ou reproduziu. Não me peçam para explicar, porque como digo sempre só tenho perguntas e não respostas, mas minha intuição de que alguma forma é isto que ocorre.
Na poesia de verdade é às vezes mais fácil perceber este contrabando, na literatura é mais sutil, mas também perceptível pelas viagens às quais nos leva e pelas pontes que constrói, como disse em um post anterior. Sem entender muito de artes plásticas acho que consigo sentir a força das imagens, aquela sensação de que o espírito é tocado de algum jeito pelas imagens. Na música eu acho que há naquilo que é contrabandeado de outros mundos a capacidade de produzir um determinado estado de espírito.
Foi isto o que ocorreu conforme fui ouvindo o cd, sentindo não só na faixa Kais wa Leila – aquela que me levou até a loja onde o comprei – mas em várias outras – destaco El Flamenco del Rumi e El futuro de la Alhambra – esta mesma substância transcendente da qual a verdadeira arte é feita. Diria que a sensação de estar ao mesmo tempo alheio a que estava em volta e conectado a outras me fez sentir a sinceridade daquilo.
Se não houvesse ali esta qualidade mesmo as diretas referências que fizesse a algo que me é caro talvez ainda me fizessem comprá-lo, mas de forma nenhuma teriam me feito comentar o assunto aqui hoje. Assim como às vezes descobrimos que um autor do qual gostamos não nos agrada mais em seu novo livro, que determinado artista plástico foi morto pela sua adoção de algum estilo diferente que não tem a mesma sinceridade de antes – de quebra diria que é muito mais agradável descobrir o contrário, um livro que nos impressiona de um autor que não gostamos, pro exemplo.
Shanti me dá a impressão de percorrer o mundo buscando aqui e ali os fragmentos que se espalharam quando a beleza se espatifou pelo mundo na queda. Que nas faixas se misturem o italiano, o espanhol, o francês, o gitano, o árabe, o alaúde e a cítara, nada disto soa estranho na mistura porque parece que a meta é alcançar nesta mescla a linguagem dos pássaros que se falava antes de Babel.

PS:
Senti necessidade de deixar este recado depois dos primeiros emails e mensagens que recebi sobre o texto. Jamais aceitaria fazer pirataria de um cd cujos resultados são utilizados justamente em viabilizar projetos tão importantes e interessantes. Fazer isto para mim seria como se a música tivesse entrado por um ouvido e saído pelo outro. Desculpem-me se sou rabugento nestas coisas, mas é uma questão de princípios.
Se que os CDs de Oliver Shanti são difíceis de serem encontrados, justamente por serem independentes, mas podem ser encotnrados na página da sua distribuidora no Brasil, a Aradourada: www.aradourada.com.br

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