A Aversão às elites
A aversão às elites
“Eu não disse nunca que a sociedade humana deve ser aristocrática, senão muito mais do que isto. Já disse e sigo crendo, cada dia com mais enérgica convicção, que a sociedade humana é aristocrática sempre, queira ou não, pela sua própria essência” (Ortega y Gasset, A Rebelião das Massas)
Descobri com muita satisfação o pensamento do filósofo conservador espanhol do início do século XX Ortega y Gasset. Avesso a sistemas que de forma mais ou menos aleatória tentam classificar as idéias em boas ou ruins costumo ler coisas diversas para formar meu próprio juízo a respeito e sem dúvida qualquer coisa bem escrita merece ser lida de mente aberta. Mas no caso específico de Ortega y Gasset o autor conseguiu superar a mera barreira da curiosidade interessante e ao menos em algum grau foi capaz de convencer-me e despertar algumas identidades com meu ponto de vista.
Ao contrário daquela outra vertente conservadora representada por Nietzche – a qual vem se tornando popular nos últimos tempos – Ortega y Gasset frisa sobretudo a superioridade da disciplina moral das verdadeiras elites.
Talvez seja por isto que enquanto o pensador alemão jamais atingiu a elite, mas pelo contrário só encontra adeptos no seu oposto, na escória, em todos aqueles que sem a qualidade para liderar tentam impor-se pela força ou aparente desprezo pela massa que não os aceitou, o pensador espanhol só consiga partidários de fato em círculos cada vez menores. O primeiro falava ao lompesinato – como o monte de vagabundos que formava o corpo principal das tropas de choque do partido nazista e o cabo que os liderava – enquanto o segundo fala a um tipo de aristocracia – no sentido original e estrito do termo – que cada vez tem menos condições de existir.
Para evitar mal entendidos é preciso ser preciso na caracterização de elite e aristocracia, termos que chegaram ao ponto de se tornarem pejorativos pelo lado dos que criticam o que estas distinções representam e distorcidos até o grotesco por aqueles que dizem defendê-los. O próprio Gasset deixa bem claro que quando fala de aristocracia não está se referindo à nobreza de aparência e privilégio na qual só restava de verdadeiramente aristocrático “ a graça digna com que sabiam receber em seus pescoços a guilhotina” e cujo grande símbolo que era Versalhes era apenas “a morte e a putrefação de uma magnífica aristocracia”. Também distingue Ortega y Gasset com furor alguma confusão entre o seu conceito de elite do grupo que chama a si mesmo de sociedade e “não se parece em nada” com a verdadeira aristocracia”. Esta mediocridade “que vive simplesmente de convidar-se ou não convidar-se”, fazendo a felicidade de todos os gigolôs da vaidade alheia que proliferam na TV.
A distinção entre elite e massa na visão de Gasset não é portanto, para que fique bem claro, de classe social. Pelo contrário ele destaca justamente que grupos sociais que no passado eram predominantemente de elite pro conta de sua tradição seletiva, na época dele (o livro Rebelião das massas foi escrito em 1933), tornaram-se refúgio dos inqualificáveis e desqualificado, citando expressamente o meio intelectual e os sobreviventes da nobreza. Ao mesmo tempo destaca que “não é raro encontrar hoje entre os operários espíritos egregiamente disciplinados”.
Outra distinção essencial feita por ele, e sobre a qual me prolongo porque é a partir deste ponto que chego a conseguir aceitar Ortega y Gasset é que numa advertência à frase que serve de epígrafe a este texto é que ele se refere sempre à sociedade e não do Estado. Esta distinção é mais do que fundamental, porque todas as tentativas de associar algum tipo de elite automática a qual se entrega o poder costuma resultar em degeneração, estagnação ou desastres variados.
Bom, amanhã discuto esta questão. Boa noite a todos.

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