Assombrações

Ontem fui ao cinema, depois de tempos sem ir, pra ocupar a mente e escolhi um filme meio ao acaso, só porque gosto de filmes de terror, mesmo achando que eles vão ficando piores a cada safra, com os efeitos especiais ocupando o espaço que deveria ser do verdadeiro terror que se constrói na nossa mente. Assombração (o título em português é lamentável e apelativo, em inglês é Re-cycle, não faço idéia de qual o nome original do filme em chinês, mas imagino que deva expressar figura semelhante ao do inglês).
A escolha casual revela como sempre aquela sabedoria com a qual às vezes somos agraciados quando sabemos ver e ouvir os sinais. Mas vou me ater à história descontextualizada, o filme é sobre uma escritora que começa a escrever uma história de terror e no decorrer das experiências que invoca faz uma jornada pelo inferno de seu processo criativo, onde residem as sobras de seu
pensamento, os personagens abandonados, as coisas que ela não quis criar.
Quase impossível dizer mais sem que se estrague o prazer do filme. Então me atenho aos detalhes, há efeitos especiais, sim, que ajudam muito em cenas terríveis, capazes realmente de assustar. Mas eles são apenas o adorno, o complemento do verdadeiro terror, que é sempre psicológico.
A jornada da escritora pelo seu inferno criativo tem muitos pontos em comum com tantas outras jornadas místicas, nas quais enfrentamos nossos medos. Expressasse naquele simbolismo antigo, que é capaz de superar as barreiras culturais e religiosas, falando assim na linguagem antiga ao mesmo tempo oculta e evidente.
Sempre penso que os verdadeiros símbolos tem esta qualidade mágica de não importar em qual sistema ele seja decodificado, em todos fará sentido. Já disse algumas vezes que os debates sobre reencarnação ou não não fazem muito sentido para mim, porque se atém a uma representação, não a idéia central e essencial da questão, das nossas opções pelo mundo material ou espiritual.
As idéias de tempo e espaço, a meu ver, tem mais relação com este nosso conhecimento limitado do mundo, Para Deus, que tem o conhecimento perfeito, simultâneo, onipresente e onisciente não há estas nossas idéias de sucessão no tempo e deslocamento no espaço não devem fazer sentido. Da mesma forma pouco importa se a jornada se dê de fato ou seja só a representação de nossos dilemas psicológicos, que simbolizamos para que nos seja mais fácil enfrentar. Em todos os casos o relevante é sempre o resultado e não o meio.
Mas como todas as boas jornadas tem também as suas características específicas, seus cenários particulares. Quando a trama parece estar resolvida a sua verdadeira conotação, relacionada com a responsabilidade de quem cria, muda repentinamente o sentido de tudo que foi visto.
Não é um filme que recomendo a quem não esteja bem, é sombrio, depressivo. Mas é um filme que em algum momento quem cria ou quem busca algo em si deve assistir. A mim valeu muito.

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