A Aposta da inconsciência

A aposta na inconsciência

A enorme pizza servida como desfecho da crise política no lugar da grande reforma política com a qual os otimistas sonharam quando os fatos começaram a surgir é muito mais que descarada impunidade, muito maior do que mero desafio à opinião pública. Ela é, sobretudo, a aposta de alguns políticos, especialmente do PT, na inconsciência do cidadão.
Um dos cálculos envolvidos nesta aposta é a alta probabilidade de ter mais valor uma boa estrutura de campanha com recursos materiais – de algum dos valeriodutos disponíveis – que uma boa imagem pública. Sem dúvida todos aqueles cujas imagens aparecem à opinião público ostentando sua vileza e infâmia aguardam algum tipo de compensação por parte daquilo que foi defendido, até porque pensar o contrário seria imaginá-los ingênuos.
Grosso modo, é bem possível que o sistema perverso de transformação do Estado em máquina política e financeira não seja desmantelado pelos escândalos. Pelo contrário a própria máquina deve girar mais um dente da sua engrenagem e avançar no seu processo de esmigalhamento de consciências para produzir meios de acesso ao poder.
A despeito de qualquer coisa que se diga dos políticos, é preciso dizer que ao menos a grande maioria deles entra no “jogo político” movido por algum tipo de preocupação idealista. O problema é que p caminho até o poder é tão árduo, às vezes o reconhecimento é tão limitado, o que pode ser feito tão parco que a tentação de pegar alguns atalhos que pavimentem o caminho, promovam as ações mesmo quando são irrelevantes. Neste atalho em geral perde-se a noção do destino da viagem, do fim que se busca. Para repetir a expressão que se tornou chavão nas análises dos últimos anos, mas sobre a qual ainda vale a pena refletir, os meios tornaram-se um fim em si mesmo.
Esta percepção de que o atalho vale a pena porque facilita o acesso e manutenção no poder, mesmo ao custo do sacrifício da própria consciência não será mudado em definitivo e integralmente por nenhuma Reforma Política, nenhuma medida mágica, nenhum salvador da pátria. Ela só pode ser mudada a sério através do centro de decisão que move todo o mecanismo: o eleitor.
É evidente que mudanças na legislação podem colaborar, aumento da fiscalização para fazer com que a lei seja cumprida também, o atual descrédito do “marketing político” - termo por si só contraditório - e avanço ainda mais promissor enfim, uma Reforma Política é um passo salutar, mas não suficiente. A solução definitiva vem do avanço na consciência do eleitor, do aperfeiçoamento da racionalidade do voto, do estudo e reflexão sobre os candidatos, da superação final do deslumbramento ou ofuscamento pela pirotecnia dos marqueteiros.
Um primeiro passo diz respeito justamente aos mais indignados. Não há dúvida que entra no cálculo daqueles que optam pela infâmia remunerada o fato dos mais enojados com os resultados da podridão do sistema tendem não a lutar para mudá-lo, mas expressar sua raiva através de inútil voto nulo ou branco. Tanto entre neste cálculo que o principal esforço daqueles pegos chafurdando na lama tem sido atacar todo o resto para consolidar a imagem que todos são iguais. Anular o voto, por mais que esta tentação se torne cada vez mais forte, não é um protesto, mas um endosso da estratégia dos mais cínicos dentre os ladrões.
Uma segunda tarefa seria descartar todos aqueles que fazem campanhas caras, que enchem as ruas de placas, faixas, cabos eleitorais, carros, muros, é mais que evidente que o dinheiro que paga isto vem de algum lugar. Quanto maior visibilidade o candidato tem maior a probabilidade dele já ter tomado o atalho de algum valerioduto. A consagração do conceito de que uma campanha vistosa é ou pode vir a ser uma campanha corrupta é parte da salvação da política nacional e quem quer que vote em candidatos “vistosos” está pedindo para ser roubado, portanto merece ter maus políticos, visto sua falta de discernimento.
Outro aspecto diretamente relacionado ao anterior é que a multiplicação do visual, portanto do apelo emocional para votar no fulano ou no beltrano, é sempre uma negação do racional, da argumentação, enfim daquilo que legitimamente faz parte do processo de decisão política. É por esta contradição entre a razão que deveria guiar a decisão eleitoral e as tenativas de conquistar o voto através de apelos emocinais e irracionais que disse acima que o termo “marketing eleitoral” é uma aberração e um paradoxo. Ou a decisão é política – portanto racional e voltada ao interesse público – ou é motivada por alguma outra coisa.
Haverá tempo para mudar isto nestas eleições? É difícil saber, porque há pouco tempo, mas também há uma insatisfação como nunca houve, agravada pelas afrontas dos mensaleiros e seus defensores. Mas só o eleitor poderá dizer se foi correta a aposta feita pelos vis - garantindo recursos para a campanha em detrimento da imagem pública – ou se o descaramento levado a extremo será capaz de gerar uma reação positiva.

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