Antígona e o Bobo
Bobo - Se eu falar sobre isso como costumo, que seja chicoteado o primeiro que me compreender. (Shakespeare, Rei Lear, Ato I, Cena IV)
Antígona - Se te parece que cometi um ato de demência, talvez mais louco seja quem me acusa de loucura (Sófocles, Antígona)
Um dos personagens abordados de forma mais injusta pelo senso comum é o bobo da corte. Com o tempo a imagem que se fez dele transformou-o justamente no seu contrário. O bobo não era a figura caricata que tenta agradar o soberano para colher algumas migalhas do banquete do poder. É, pelo contrário, aquele que diz verdades tão profundas a ponto de precisarem ser travestidas de pantomimas para serem apresentadas aos mortais. Só o bobo, pela sua loucura, é capaz de contrariar todos os interesses, deixar de lado todas as manobras, desvelar-se de tudo que é subterrâneo portanto seguro para dizer na cara do rei as coisas desagradáveis.
É esta dimensão que torna o bobo um sucessor dos personagens trágicos. Não há como não relacionar o bobo medieval, por exemplo, com o adivinho Tirésias, em Édipo Rei ou Antígona de Sófocles. Também Tirésias é a ponte entre mundos diversos trazendo aos homens as mensagens terríveis nos momentos cruciais. A mensagem das divindades, do mundo superior, trazida por Tirésias é a mesma expressa na fala final do Corifeu da Antígona: Não formules desejos... Não é lícito aos mortais evitar as desgraças que o destino lhes reserva!. O dilema fundamental de Édipo em Édipo Rei nada tem a ver com o sentido dada à história por inúmeros comentaristas que não leram o texto e baseiam-se apenas em algum sentido captado de forma fugaz em algum texto de popularização psicanalítica. O castigo de Édipo e seus pais vem da tentativa dos três de burlar os desígnios divinos.
Acho pouco explorado o fato de que a punição tripla, extensiva a toda a família, jamais teria ocorrido não somente se Jocasta e Laio não tivessem tentado escapar aos oráculos. Tivesse Édipo ficado na casa de seus pais adotivos e se conformado com seus augúrios infelizes e o fado não teria se confirmado. Da mesma forma não tivessem Laio e Jocasta tentado dar um jeitinho de escapar à previsão do oráculo o desenrolar da história seria outro. Há neste ponto não só uma noção da impossibilidade de escapar do destino, mas um sentido de omnisciência da divindade, sentido este que por sinal lembra trechos d Sagrado Alcorão mencionando as andanças de Moisés junto com o Khidr, além de várias outras passagens de histórias tradicionais.
Ainda assim é fundamental destacar que o desastre dos heróis não é casual, fortuito, mas um resultado direto de suas ações, assim se o destino é arbitrário em vários pontos, o desenlace da história jamais é. Voltando à questão do Bobo, há algo que falta em Tirésias para encaixá-lo neste papel. A verdade na língua de Tirésias queima inclusive a ele próprio, é um fardo, algo desagradável. Ele implora a Édipo em Édipo Rei quando é chamado:
TIRÉSIAS - Oh! Terrível coisa é a ciência, quando o saber se torna inútil! Eu bem assim pensava; mas creio que o esqueci, pois do contrário não teria consentido em vir até aqui. E, ainda de forma mais drástica, para não ser forçado a esclarecer a história: TIRÉSIAS - Jamais causarei tamanha dor a ti, nem a mim! Por que me interrogas em vão? De mim nada ouvirás! E por fim só fala sob intensa coação, aos ser ameaçado de ser ele próprio acusado pelo crime de Édipo: TIRÉSIAS - Será verdade? Pois EU! EU é que te ordeno que obedeças ao decreto que tu mesmo baixaste, e que, a partir deste momento, não dirijas a palavra a nenhum destes homens, nem a mim, porque o ímpio que está profanando a cidade ÉS TU!
Para não me estender não comento a suspeita, desde a primeira vez que li Édipo Rei, de que há um conluio entre Tirésias e Creonte. Ressalto apenas que achei a hipótese mais consistente a despeito de Tirésias também profetizar o castigo a Creonte pela tirania - depois de ter lido Antígona, na qual é dito:
Creonte - Toda a raça dos adivinhos é cúpida!. Tirésias - E a dos tiranos adora os proveitos, por mais vergonhosos que sejam. Creonte - Sabes que é a um rei que diriges tais palavras? Tirésias - Bem o sei. Graças a mim pudeste salvar o Estado. Creonte - Es um adivinho esperto: mas tens prazer em proceder mal. Tirésias - Tu me obrigas a dizer o que tenho em mente! Creonte - Pois fala! Contanto que a ganância não te inspire!
Bem diferente é a invocação do Bobo do Rei Lear, de Shakespeare, talvez a personagem do tipo melhor acabada, ao lado do Bobo do filme Ran de Kurosawa que é inspirado no primeiro. Quando Lear reclama que seu bobo é um bobo amargo o Bobo responde com mordacidade dizendo que o verdadeiro bobo é o rei:
LEAR - Um bobo amargo. BOBO - Saberás dizer, meu rapaz, que diferença há entre um bobo amargo e um bobo doce? LEAR - Não, menino; ensina-ma. BOBO - Quem o conselho te deu de doar todas as tuas terras põe aqui ao lado meu, e o dele toma; não erras: verás logo, lado a lado, o doce bobo e o amargoso; um aqui, sarapintado, o outro aí mesmo, achacoso. LEAR - Com isso queres dizer que eu sou bobo, menino? BOBO - Já abriste mão de todos os outros títulos; esse é o único que te veio do berço. E para não deixar dúvidas, mesmo quando lamenta a posição de Bobo ele coloca-se acima do rei: BOBO - Não posso compreender que tu e tuas filhas sejais aparentados; elas me açoitam por eu dizer a verdade, enquanto tu pretendes fazer o mesmo no caso de eu mentir, sem contarmos que algumas vezes tenho sido açoitado por estar quieto. Quisera ser tudo neste mundo, menos bobo, mas não desejo ser o que és, tio; dos dois lados raspaste o espírito, sem deixar nada no meio...
É este aspecto, senão de felicidade de destemor frente ao poder, que torna próximos os personagens da Antígona e do Bobo. Ambos priorizam uma fidelidade a valores superiores, tradicionais, e confrontam o poder estabelecido em nome destes ideais elevados. É digno de nota que há identidade de valores nas duas peças, em ambos os casos estáem cheque a fidelidade e amor devido aos familiares, norma cujo desrespeito desgosta a justiça do universo. Também é importante reafirmar que um certo estado de loucura serve como justificativa a ambos, como no trecho da Antígona mencionado na epígrafe. Nos dois casos a loucura é antes uma forma superior de ver as coisas que se confronta com a visão limitada e interesseira do senso comum.
É esta definição que faz os loucos de Deus dotados de uma visão que ultrapassa a dos homens comuns e faz com que o Bobo do Re Lear sejaaparentado ao sábio zen - aspecto enfatizado na versão de Lear realizada por Kurosawa de Nasrudin e de personagens de quase todas as tradições. É neste sentido que muitas vezes Antígona é interpretada com certo equívoco na medida que é vista como a revolucionária que confronta o poder. Se esta leitura tem certa consistência na medida em que ela coloca seus ideais acima do teor do Estado e contesta com a própria vida um decreto cujo conteúdo é injusto, por outro lado seu motivo não é a tomada do poder ou a implantação de alguma nova ordem, mas a retomada da ordem tradicional. Não é em nome da individualidade que ela confronta Creonte, mas do seu senso de dever com a tradição, inclusive sem buscar por isto qualquer recompensa, nem mesmo a de fugir ao castigo imposto a sua família pelo fado, com destaca a parte final do texto:
Antígone - Ó cidade de meus pais, terra tebana! Ó deuses, autores de minha raça! Vejo-me arrastada! Chefes tebanos, vede como sofre a última filha de vossos reis, e que homens a punem, por haver praticado um ato de piedade! O crime de Creonte ou mais propriamente a sua ação que gera a Hibrys resultando na sua desgraça é tentar colocar seus desígnios acima daqueles determinados pelos deuses. A luta de Antígona, na qual ela não tem prazer além de cumprir o que considera um dever, não é para destituir o tirano, apenaseste cumprimento de um dever que ela considera sagrado.
Da mesma forma o Bobo de Shakespeare, portanto também o de Kurosawa, também não espera alguma recompensa senão o cumprimento do seu dever de fidelidade ao rei, mesmo quando isto resulta em seu prejuízo pessoal e no ódio do restante da corte. O Bobo é aquele que se arrisca a ser o bom conselheiro, ainda que numa linguagem criptográfica e confusa. É curioso o paralelo com algumas referências de Thomas Morus na parte inicial da Utopia, na qual ele recomenda a quem tem talento e visão não se tornar um áulico:
Quanto aos conselhos dos reis, eis aproximadamente a sua composição: Uns se calam por inépcia, e teriam mesmo grande necessidade de ser aconselhados. Outros, são capazes, e sabem que o são; mas partilham sempre do parecer do preopinante, que está em melhores graças, e aplaudem, com entusiasmo, as pobres imbecilidades que este entende desembuchar; esses vis parasitas só têm uma finalidade: ganhar, por uma baixa e criminosa lisonja, a proteção do primeiro favorito. Os outros, são escravos de seu amor próprio e escutam apenas a própria opinião, o que não é de admirar, pois a natureza insufla cada um a afagar com amor os produtos de sua invenção. É assim que o corvo sorri à sua ninhada, e o macaco aos seus filhotes.
É a incapacidade da razão, dos valores elevados, da análise desvinculada dos interesses pessoais e imediatas que torna o Bobo necessário, já que traz à tona como uma ação demente as únicas respostas que tem ligação com o sentido universal das questões. Em particular numa sociedade dessacralizada, tecnocrática, na qual não há qualquer tipo de transcendência, não é de se admirar que este papel d guardiãoda verdade mais elevada do Bobo seja incapaz de ser compreendido e ele seja visto apenas como mais um áulico tentando agradar aos poderosos, assim como certa singeleza da ação de Antígona, a perder a vida apenas para cumprir um dever sagrado seja tampouco compreendido em sua simplicidade, geralmente confundido com alguma postura revolucionária.

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