Animal e humano

Sempre acho curiosa a construção de uma oposição humano-animal que costuma figurar em tantos sistemas de pensamento. Até posso compreender certo sentido simbólico desta pretensa dualidade, pelo sentido que faz pelo desconhecimento do comportamento animal ou pelo conhecimento superficial. Na imensa maioria dos casos, contudo, a expressão é utilizada para avaliar ou até justificar comportamentos que nada tem a ver com a animalidade em si.
Ainda que pareça paradoxal, penso que a imensa maioria dos nossos defeitos vem do nosso livre arbítrio, ou seja, da nossa natureza divina, mais do que de nosso substrato animal. Lembro-me da frase de Schuon: “os homens vão ao fogo porque são deuses e salvam-se porque são criaturas”. Também não posso deixar de lembrar-me de um texto de Lobato no qual ele diz que o homem é um macaco que caiu de cabeça de uma árvore e como seqüela desta “Queda” passou a agir de forma estúpida, diferente da natureza onde todos os comportamentos têm um sentido.
Por fim lembro-me de um texto de um pensador muçulmano onde ele destaca que toda a natureza é muçulmana – ou cristã, budista, hindu, enfim – no sentido amplo do termo visto que se submete às leis que a regem. Vale destacar que Jesus também destacou este aspecto quando recomendou que olhássemos os lírios do campo.
Considero que obtenho sabedoria e discernimento estudando os comportamentos animais, até no sentido de avaliar melhor os seres humanos. Nos animais os comportamentos seguem regras talvez mais claras, não maquiadas, mas há um tanto de animal no ser humano e considero o livro de Desmond Morris, O Macaco Nu, que cito por aqui com freqüência, quase como uma leitura obrigatória.
No ser humano os comportamentos simbólicos, as linguagens naturais estão contaminadas pelas tentativas de controle e até pelas palavras. Não é à toa que em praticamente todas as tradições os mestres ensinam tanto pelo silêncio, pela observação, pela imitação, pelos gestos, pelos rituais, enfim, por métodos que não estão contaminados pelos sentidos apenas aparentes.
Uma das coisas que mais me chamaram a atenção na similaridade entre outros mamíferos sociais e o ser humano é a facilidade pela qual se distingue o poder e a verdadeira autoridade. Os animais dominantes em um grupo são na imensa maioria do tempo calmos e tranqüilos, em particular quando estão bastante seguros de sua autoridade sobre o bando. A agitação e movimentação só ocorre nos estratos inferiores ou nos momentos nos quais a liderança está de fato ameaçada seja pela fraqueza do animal dominante seja pelo fortalecimento de seus rivais, ou seja, em momentos nos quais o equilíbrio está rompido.
A imensa maioria daqueles que exercem o poder agem não com a serenidade tranqüila de quem detém a autoridade, mas com a agitação do líder fraco ou do rival ameaçador. Como os homens perderam boa parte de sua capacidade de compreender estas linguagens de sinais imaginam que a agitação é símbolo de poder e atividade de liderança. Mas ainda assim lá no íntimo conservamos certa capacidade de ver isto, como pode ser visto pelas múltiplas descrições de grandes personagens nas quais se destaca a serenidade que só a disciplina e a reflexão são capazes de dar.

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