Afinidades eletivas
Muitas pessoas tem falado sobre uma certa esquizofrenia internética, que faz as pessoas assumirem outras personalidade e papéis, quando entram na rede. A escala deste processo varia muito, desde aqueles que metem simplesmente por mentir até aqueles que conseguem realizar através da rede um papel que realmente gostariam de ter. Dizer a verdade tornou-se raro, a ponto de que muitas vezes as pessoas não acreditam se o fizer.
Parece-me, contudo, que este fenômeno aos poucos vai perdendo um pouco a força. Basta ver que nas salas de chat e similares, mesmo continuando a haver aqueles que se entretem inventando apelidos raros, as pessoas que colocam o próprio nome tem aumentado. Aos poucos também é possível perceber, por exemplo no Orkut, que as pessoas vão deixando de lado os personagens e assumindo-se.
A forma mais sadia destes complexos me parece ser aquela na qual a pessoa torna-se aquela que gostaria de ser, a não ser, claro, quando o fulano desejaria ser Napoleão ou coisa do tipo. Em outras palavras, quando os valores que a pessoa tem tornam-se mais possíveis de ser concretizados no espaço virtual, portanto ele pode libertar-se de mais algumas destas camadas de hipocrisia que são indispensáveis à vida em sociedade.
Há uma interessante dinâmica que ocorrer nestas relações entre criatura e criador. Independente do que aconteça ou de quão distintos sejam o personagem e a personalidade eles tendem sempre a lutar entre si, de forma aberta ou oculta. Em um dos meus hobbies, o micronacionalismo (o nome é terrível, mas fazer o que não fui eu que inventei) - simulação de países imaginários pela Internet, este processo de luta entre personagens e criadores muitas vezes gera episódios curiosos e bem visíveis.
Nas pessoas normais acho que em geral o personagem perde a batalha e acaba desaparecendo sendo reabsorvido pelo criador. Em outros o personagem acaba se tornando mais importante, às vezes até passa a invadir o mundo real gerando algum caso de mitomania. Conheço até um caso raro, que infelizmente aconteceu comigo, de um personagem de outra pessoa que era calcado em mim, catava minhas palavras e as reproduzia, mas era afinal um caso terminal de psicopatia.
Não concordo com certo preconceito existente sobre estas coisas que são “virtuais”. Os laços de amizade que se criam nestes veículos me parecem ser muitas vezes muito mais reais que os do mundo concreto, porque não baseados em relações quase casuais, resultado das proximidades físicas, coincidências e circunstâncias fortuitas, mas sim em afinidades de idéias, personalidades, valores, portanto fruto apenas da escolha, não tanto das coincidências limitadas pelo espaço físico.
Não me envergonha, por exemplo, que o número de meus amigos virtuais seja muito maior que o de reais, que alguns deles talvez eu jamais encontre pessoalmente. Afinal se o se comunica são os espíritos e as mentes o natural seria que as pessoas que tem afinidades se encontrem, não que estejamos limitados pelas circunstâncias históricas e geográficas. Caso se pense bem diria até que faz mais sentido do que ser amigo de alguém porque se é colega de trabalho ou escola. O termo de afinidade eletiva de Goethe ganha uma outra dimensão conforme as ferramentas de comunicação tornam-se mais sofisticadas.

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