Admirável Mundo Novo nos filmes infantis

Tenho falado diversas vezes sobre o triste fim da literatura infantil, em triste decadência. Sempre uso o exemplo de que as obras infantis de Monteiro Lobato dificilmente conseguiriam ser lidas pelas crianças de hoje, mas por outro lado tenho de reconhecer a qualidade crescente dos filmes infantis. E quando falo em qualidade não me refiro apenas à crescente e impressionante qualidade técnica, mas também à sofisticação dos roteiros.

Tenho falado diversas vezes sobre o triste fim da literatura infantil, em triste decadência. Sempre uso o exemplo de que as obras infantis de Monteiro Lobato dificilmente conseguiriam ser lidas pelas crianças de hoje., mas por outro lado tenho de reconhecer a qualidade crescente dos filmes infantis.
E quando falo em qualidade não me refiro apenas à crescente e impressionante qualidade técnica,Com destaque para a utilização de grandes atores na caracterização dos personagens e vozes. mas também à sofisticação dos roteiros.

A primeira vista este aparente paradoxo de livros infantis com conteúdo se degradando e filmes para crianças em uma escalada positiva de aprimoramento sugere a hipótese de uma mudança de linguagem e meio no qual a linguagem multimídia substitui a escrita.
Talvez ainda seja cedo para afirmar isto, mas há vários aspectos que apontam para que esta hipótese não seja de todo descartada.

O mundo vai se tornando mais complexo, mas muito do que se tenta escrever para crianças segue fórmulas antigas, está repleto de pretensões pedagógicas – portanto carente de sinceridade.
Ao mesmo tempo uma coisa que me chama atenção nos roteiros de vários filmes infantis recentes é justamente a complexidade das tramas e dos dilemas éticos e morais dos personagens. Ainda que sem dispensar os finais felizes recomendados para filmes infantis, vários deles não tem aquela postura maniqueísta, aquela separação clara entre bem e mal. Tenho 38 anos e os filmes infantis que assisti quando crianças em geral tinham estas imagens simplistas e estereotipadas..Heróis e burocratas: O burocrata submetendo o herói em um contexto quase nietzschiano em Heróis e burocratas: O burocrata submetendo o herói em um contexto quase nietzschiano em "Os Incríveis".
Apenas para citar alguns exemplos simples o dilema entre natureza e cultura no leão de Madagascar, os conflitos éticos do guaxinim e a guerrilha anti-consumista em “Os Sem Floresta”Diria que a tradução do título "Over the hedge" para "os Sem Floresta" foi mais do que feliz e apropriada na versão brasileira., o paradoxo do pirata em “Piratas do Caribe 2” que tem uma bússola que aponta para o que ele mais deseja, mas que não funciona porque ele não consegue decidir o que mais quer, os conflitos da inveja em “Toy Story”, a oposição entre o heróico e o burocrático – que nos bons aspectos lembra Weber e nos nem tão positivos NietzschePor sinal até mesmo com o direito à cólera heróica. – em “Os Incríveis” com seus super-heróis aposentados pelos processos judiciais, para não falar das maravilhosas descontruçõesClaro que nem sempre as desconstruções são felizes, como prova a tentativa, a meu ver infeliz, de recontar a história de Chapéuzinho Vermelho em "Deu a louca na chapéuzinho, infeliz até no título traduzido, como história policial. dos contos de fada e do consumismo nos dois filmes de Shrek.Também me chama a atenção algumas citações elaboradas, como a de “Beleza Americana” em “Madagascar” ou de “Cidadão Kane” em “Os Sem-Floresta”, as quais pelo menos falam bastante sobre a formação das pessoas que trabalham nestas produções.
Um aspecto curioso a ser notado é que também as histórias infantis tradicionais tinham um conteúdo nas entrelinhas muito mais complexo, bastante explorado mas não esgotado pela psicanálise, e só nas fases mais recentes é que acabaram tornando-se assépticos e “morais”. Mesmo Lobato, por sinal, nada tem deste moralismo insosso e mesmo que escreva com a finalidade também de ensinar algo às vezes o faz sem pedantismo e com o desejo de ensinar a audácia de duvidar, criticar e pensar por si próprio. Mais vale ser um ogro feliz: Discussão sobre individualidade e diversidade em Shrek.Mais vale ser um ogro feliz: Discussão sobre individualidade e diversidade em Shrek.
Como os modernos raramente entendem os símbolos acabam perdendo a capacidade de escrever para crianças através deles, chateiam ao invés de divertir, até porque as crianças hoje tem um acesso a informação muito maior. Ao mesmo tempo, penso eu, certa visão evolucionária não permite compreender que as crianças tem um outro tipo de sensibilidade – que com o tempo e a educação/adestramento se perde - que permite que elas compreeendam as coisas de forma muito mais profunda do que se possa imaginar, decifrem os sinais e até acessem certas noções simbólicas nem sempre muito evidente para nós adultos, que já temos a mente meio adormecida.Conformismo vilão: Adultos infantilizados e consumistas como antagonistas em Conformismo vilão (semfloresta_vilao.jpg): This image was uploaded with the post Conformismo vilão.Conformismo vilão: Adultos infantilizados e consumistas como antagonistas em "Shrek" e "Over the Hedge".
A capacidade do ser humano de manter e ouvir os anciãos foi um elemento essencial na nossa evolução. Hoje em dia, em especial com a informática, Internet e a civilização eletrônica como um todo é comum que aja certa inversão com os filhos e netos ensinando aos pais e avós, o que pode ter alguns aspectos negativos. Contudo é preciso notar também que em um mundo de adultos cada vez mais infantilizados não deixa de ser alvissarreiro que as crianças sejam estimuladas de uma forma mais elevada, inclusive estimuladas contra o consumismo que é um dos aspectos essenciais desta infantilização dos adultos.Note-se que em diversos destes filmes, citaria em especial Shrek com sua fada-madrinha-perua e “Os Sem Floresta” com a síndica-perua, o antagonista da história é justamente o adulto infantilizado, porta-voz do consumismo.

Comentários

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Prezado Alexandre, realmente

Prezado Alexandre, realmente os filmes infantis possuem roteiros muito bem elaborados. Eu assisto a todos que posso, até porque são divertidos. Sua observação foi precisa.

filmes infantis

Que estanho, filmes infantis mas com mensagem de gente grande.

Filmes como A Fuga das Galinhas e Formiguez, fazem referência à Marks e mostram o quanto estamos alienados e somos espoliados.

Por falar em filme, já assistiu ao novo E a fonte da Vida? Devo lhe dizer que é fantástico, principalmente os efeitos. Boa discussão sobre a morte. Tema também muito bem explorado por Bergman em O sétimo selo.

Se não viu, veja e me fale o que achou.

filmes infantis

Filmes infantis, mas com mensagem para gente grande.

Além destes filmes, outros como a Fuga das Galinhas, Formiguez, fazem referência à Marx, mostrando o quanto somos alienados e expoliados.

Falando em filme, já assistiu A Fonte da Vida?
veja e depois comentamos.

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