Absoluto e relativo
A noção de que a verdade é múltipla e certa interpretação, a meu ver equivocada, do termo “pluralismo” – designando não a multiplicidade de opiniões e o direito à existência desta multiplicidade, mas a igual validade de todas as visões de mundo – parecem a primeira vista uma idéia muito simpática e pacificadora. Como qualquer visão do mundo é possível, legítima e igualmente válida ninguém tem o direito de tentar impor a sua a outro – o que é correto – mas também não precisa justificar a sua, convencer, persuadir e, sobretudo, buscar os pontos em comum e a partir dos muitos pontos de início da largada tentar chegar a um ponto de vista comum na chegada.
A noção de que tudo é relativo, a negação do absoluto, tem, então, o efeito de eliminar todas as chances de unidade, separam-se as idéias, os conceitos e os seres humanos em grupos que não só são distintos como estão condenados a afastarem-se cada vez mais. Como admite que todas as verdades sejam válidas de um lado deixa de permitir que as idéias se troquem, se mesclem e busquem a aproximação com a verdade, de outro estabelece que como o embate não possa ser feito no plano das idéias – visto que todas são igualmente válidas – nem se precisa justificar as ações, que seriam incompreensíveis aos que não compartilham delas, nem se pode buscar outra forma de lidar com o outro senão com a conversão forçada ou emocionalmente motivada.
Os filósofos gregos, que não caíam nestas armadilhas, distinguiam entre a doxa, a opinião, e a verdade. Ainda que só já na sua fase de decadência esta distinção tenha precisado ser teorizada, argumentada e defendida – e diga-se de passagem esta é a grande crítica de Sócrates, Platão e Aristóteles à democracia ateniense, para os quais a forma como os tiranos tinham estruturado a democracia levava ao império da doxa no lugar do conhecimento – a idéia sobrevive até época bem recente.
A noção de absoluto, é preciso dizer, desmoralizou-se com o passar do tempo porque foi sendo utilizada não como método de buscar a unidade, mas como mera desculpa ou pretexto para uma dominação baseada na força. Mais uma vez destaco meu ponto de vista que a “rebelião das massas”, o processo que corre no mundo atual quando o vulgar se impõe como regra e esforça-se por esmagar o seleto, é culpa da incapacidade moral e intelectual daqueles que ocupando a função de elite – ou seja, sem que fosse a elite de fato – utilizam as noções da tradição e do absoluto apenas como desculpas e meios para manter-se no poder, perdendo toda a autoridade.
E é porque a busca do absoluto no qual se faz o caminho da opinião ao conhecimento foi infinitas vezes utilizado não como deveria mas como instrumento de dominação política, econômica e – para usar um termo caro aos marxistas, mas ainda assim útil quando compreendido de forma mais abstrata – ideológica que se desmoralizou e – de fato – transformou-se naquilo que hoje dizem os ideólogos do homem-massa: ferramenta de manipulação.
Isto não significa que o pensamento relativista, segundo o qual cada um pode ter a sua própria verdade tenha triunfado. A Igreja preferiu em um momento crítico na sua história a Inquisição ao diálogo e ao convencimento, ela também abriu mão do absoluto porque tirou dele justamente a sua característica de levar à unidade. O preço que pagou por isto é a dessacralização do mundo em que vivemos, ou seja, o fracasso da sua missão de elite.
Processo semelhante vem acontecendo com a ciência. Desgrudada dos fins, buscando a sua justificativa em algum movimento inelutável que passa por cima de tudo – como no debate sobre clonagem, pesquisa com embriões e até no tema mais concreto da vivisseção de animais em pesquisa – a ciência vai se ideologizando, virando cientificismo e também perdendo seu caráter persuasivo para vestir-se com poder – não com autoridade – e assim condenar a si mesma ao mesmo fim que a história reservou a todos os conhecimentos que deixaram de visar o fim último de encontrar a unidade das opiniões na verdade: virar mero pretexto político e desmoralizar-se.
Sinto-me à vontade para ler tanto Guénon atacando a ciência e o mundo moderno como o cético Carl Sagan em “O mundo habitado pelos demônios” ou “Dragões do Éden” defendendo a ciência e atacando as superstições. Paradoxal, mas não mera coincidência, que o ataque de ambos se volte contra as superstições, em particular contra o que hoje pode ser chamado de “novo-erismo”. É afinal na caricatura da tradição ou da ciência – e ás vezes de ambos – que este novo-erismo vai buscar algum poder – já que não tem como ter autoridade porque é justamente o pensamento do homem-massa por si só, sem nenhuma autoridade.
E o que é a superstição senão aquilo que sobrevive de uma estação no caminho do absoluto, um fragmento perdido que ao ser retirado do contexto deixa de ter significado próprio, passa então a ser relativo. A própria ciência vai se tornando uma superstição na medida em que deixa de ser um caminho para o absoluto para tentar tornar-se instrumento de poder, tornando-se uma destas muitas verdadezinhas irredutíveis a unidade com as quais se forma esta noção relativista.
As assim chamadas ciências sociais e humanas e a filosofia moderna – para a qual filósofo é o que detém um determinado título não aquele que fez alguma contribuição original e relevante ao pensamento humano, concepção que tem algo de supersticiosa por atribuir importância ao pedaço de papel e não ao conhecimento – já estão em grande parte dissolvidas nesta sopa. A biologia e as ciências médicas caminham rapidamente pelo mesmo caminho porque já não são capazes de justificar muitos de seus procedimentos senão invocando o supersticioso argumento de que não se pode deter o caminho da ciência – argumento que encontrei inúmeras vezes contrapondo-se a legislação de Proteção Animal e que vejo agora repetido na questão da utilização de embriões humanos – que revela a incapacidade de formular qualquer argumento objetivo, persuasivo e acaba sendo o mesmo que se utilizava na Idade Média para justificar a inquisição.
Mesmo desmoralizado pelo mau uso, contudo, continuo a acreditar que o absoluto é possível e não posso aceitar as idéias relativistas segundo as quais cada grupo, religião, sistema de crenças, opinião política são ilhas com o mesmo direito. Admitir isto para mim é aceitar que como todos tem razão a única forma de chegar a uma conclusão é nos matarmos para ver qual é afinal o mais forte, ao invés de debater com sinceridade para talvez descobrir que todos estavam no caminho certo mas não conseguiam enxergar o quadro todo porque faltavam unir os vários pedaços.

Assalamu alaikum!
Assalamu alaikum, irmão Hilal!
Há tempos eu conversava com o irmão Malê sobre você, de como eu gostava (e gosto) do que você escreve e do quanto estava chateada, e até preocupada, por não ter notícias suas.
Hoje, navegando em algumas comunidades islâmicas do Orkut eu vi uma mensagem com links para alguns blogs mantidos por muçulmanos, e comecei a visitar um a um. Você não imagina a minha alegria e satisfação ao descobrir o seu blog!
Já está nos favoritos do meu navegador e na seção de links do meu blog!
Que Allah proteja a você e sua família.
Sua irmã no Islã,
Maria.
"A noção de absoluto, é
"A noção de absoluto, é preciso dizer, desmoralizou-se com o passar do tempo porque foi sendo utilizada não como método de buscar a unidade, mas como mera desculpa ou pretexto para uma dominação baseada na força."
Quais técnicas de retórica os argumentos usados no absoluto são usados para uma dominação baseada na força? Vi uma passagem em um filme, e agora lendo esse trecho gostaria de ver as relações.
Att. Ricardo
se possivel responder pelo email.
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