Deus está morto?

Deus está morto?

"Tudo o que digo de Deus é um homem quem o diz" (Karl Barth)

Alexandre Gomes

Diariamente se reduz o espaço destinado a Deus no mundo por conta das novas descobertas da ciência que explicam uma nova faceta do Universo que pareça misteriosa aos nossos antepassados. Do infinitamente grande ao infinitamente pequeno, passando pelo milagre da vida, já não existem mais pontos nos quais o homem não tenha conseguido produzir avanços substanciais na sua dissecação do universo.

Um dos poucos refúgios da divindade nas mentes do público comum é a pretensa ordem encontrada na criação e no universo, as milhares de espécies que parecem tão adaptadas ao seu ambiente, as engrenagens miraculosas do universo prestes a serem desvendadas numa equação que o físico americano Stephen Hawkins chamou de "Lei de tudo" (Law of everything) que unifique a Teoria Geral da Relatividade com a Mecânica Quântica.

Qualquer exame desta adaptação e mecânica perfeita descobre que o grande milagre por detrás de tudo isto é o tempo, não a divindade. As espécies constróem o seu melhor desempenho, mas não do dia para a noite, tampouco em séculos ou milênios, mas em milhões de anos. O constante aperfeiçoamento das espécies se dá através de uma seleção natural extremamente cruel, e portanto eficiente, que elimina os gens defeituosos através da eliminação de seus portadores.

Os predadores não caçam suas vítimas ao acaso, sabem detectar os mais fracos e é sobre eles que avançam. Ao fazerem isto garantem que a presa, depurada geneticamente, será mais forte ao longo dos milênios; com isto os predadores mais fracos irão morrer de fome e também a espécie caçadora será depurada geneticamente. No extremo este processo levaria à perfeição, mas não é uma destas nossas perfeições limitadas, mas é uma medida no tempo da eternidade, dos milhões de anos.

Como imaginar que a incrível mecânica do universo cabe em uma mera equação matemática, contudo é isto que deve acontecer em breve. Evidentemente não será uma lei definitiva, apenas um conceito apropriado ao nosso nível de conhecimento, tal como as de Newton e Einstein foram ao seu tempo. De qualquer forma isto significará que a criação e existência do Universo poderá ser entendida com um grau ainda menor de aproximação e lá não se encontrará nada de miraculoso.

O conceito de um Deus que surgiu para explicar o que não podia ser explicado pela experiência humana desaba neste avanço do conhecimento humano. Os fundamentalistas, em especial os cristãos e judeus, aferram-se ao Gênesis cada vez mais apenas com a fé, porque todas as evidências lhe são roubadas.

Se procurarmos um Deus para explicar o que não podemos entender, então Deus está morto!

Se procuramos um Deus que criou um universo perfeito, dirigido por leis harmônicas, então Deus está morto!

Se procuramos um Deus como explicação para uma natureza irretocável, então Deus está morto!

Porém, se buscarmos não este Deus extático, este Deus que cobre as falhas de nosso conhecimento, mas um Deus que gerou um universo em movimento que caminha para a perfeição - a ponto de um dos seres criados ser capaz de entender as próprias ações do criador - então este Deus não morreu.

O "inventor" da filosofia pragmática, William James - irmão do escritor Henry James, o que motivou o mote do historiador da filosofia Will Durant "um deles escreve ficção como se fosse filosofia, o outro escreve filosofia como se fosse ficção" - dizia que a persistência da idéia de Deus era a maior prova de seu valor moral e universal. A ele bastava a "utilidade" óbvia do conceito de Deus. Ainda que seja pouco, é um argumento irrespondível: "Deus existe porque ele é necessário".

A pretensa hostilidade entre ciência e religião é na verdade uma falsa polêmica que perdura há séculos porque não está na verdade antepondo Deus ao conhecimento científico, apenas apresentando lendas antigas e medievais em contraposição a um conhecimento sempre crescente. Deus não pode continuar pagando o preço de ter sido confundido com a Igreja e com o que Dele diziam os homens há séculos.

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