Bradlee & Mr. Boot
Bradlee & Mr. Boot
Uma análise rápida da entrevista de Bradlee ao Estadão
Tell the Truth *
Garganta profunda *
Fardo do homem de letras *
Cercas de arame farpado *
A pena invisível do mercado *
Conclusões *
Tell the Truth
Uma análise rápida das principais idéias contidas na entrevista de Bradlee
No domingo, dia 31 de outubro de 1999, o jornal O Estado de São Paulo publicou uma longa entrevista com o editor do Washington Post à época do Caso Watergate, Benjamin Crowinshield Bradlee. Ao longo da entrevista Bradlee defende o papel da imprensa nas sociedades modernas, destaca a importância da ética profissional e ataca a exigência de formação específica na área de Jornalismo para o exercício da profissão - resquício do entulho autoritário do regime militar que sobrevive graças à pressão corporativista numa curiosa aliança de interesses entre a extrema-direita que implantou a norma e a esquerda que faz dela meio de vida.
Uma das características mais marcantes do texto de Bradlee é a sua insistência em afirmar que existem dois tipos de jornalismo, um minoritário que ele chama de "jornalismo de qualidade", e o resto. Há nestas palavras uma extensão do conceito de Yellow Press - a imprensa sensacionalista - que não se limita aos tablóides mas acaba incluindo boa parte da imprensa como um todo.
A distinção, na avaliação dele, não é só de qualidade, mas sobretudo em termos de ética, em especial da vontade de dizer a verdade associada ao esforço material, intelectual, profissional e moral de chegar até ela. Isto, é claro, associado a um profundo rigor que exige provas, fatos, documentos, evidências empíricas inegáveis, ainda que elas tirem algum charme da história ou retardem a sua publicação.
Impossível não pensar no previdente Mr. Boot de A Montanha dos Sete Abutres (Ace in the Hole, também conhecido como The Big Carnival, Billy Wilder, 1951), editor do jornal de Albuquerque no qual o protagonista Charles "Chuck" Tatum vai trabalhar. Como o quixotesco anti-herói do filme, Bradlee parece usar simultaneamente cintos e suspensórios no esforço de não ser pego desprevenido.
Quando, durante a entrevista, ele comenta o caso Janet Cooke - repórter do Washington Post que inventou uma matéria e chegou a receber um prêmio Pulitzer, depois devolvido pelo jornal) - parece estar comentando o encontro final de Boot e Chuck visto pela ótica do cauteloso editor. E ele o cita justamente para justificar um maior cuidado que o jornal estaria tomando antes de divulgar reportagens de conteúdo mais forte, novamente cintos e suspensórios.
Garganta profunda
Jornalismo investigativo como tentação
É interessante notar que o que ele considera jornalismo investigativo é algo muito mais profundo do que o rótulo comumente aplicado à questão. No caso de Watergate a identidade da fonte secreta - identificada como "Deep Throat" (Garganta Profunda, nome de um filme pornográfico muito comentado na época) - é secundária porque ela apenas indicou os caminhos que deviam ser seguidos. Ao contrário de muitas reportagens que se dizem investigativas simplesmente por basearem-se em "fontes que preferiram não se identificar" - e algumas não se identificam porque não existem como se pode constatar diariamente na imprensa - o importante é a dica dada pela fonte como "caminho das pedras para se chegar aos documentos e fontes que comprovem a denúncia.
A visão dele é essencialmente otimista, os bons jornais vão sobreviver à Internet, o nível cultural e intelectual dos jornalistas está aumentando, os leitores estão se tornando mais participantes e críticos. Ainda que em alguns momentos ela demonstre algumas preocupações com o fato dos políticos estarem mentindo demais, o que, como ele mesmo afirma, é um reflexo da sensação da impunidade pela mentira.
Esta preocupação parece ser bastante justa, afinal foi a mentira mais do o ato em si que levou Richard Nixon a sofrer um processo de impeachment e ser obrigado a renunciar, após o Washington Post trazer a tona o Escândalo de Watergate. Transformando em paradigma do escândalo capaz de derrubar um governo, como pode ser facilmente percebido pelo abuso na utilização de "gate" como sufixo dos mais variados escândalos, Watergate diz respeito não a corrupção, mas justamente ao abuso de autoridade constatado pela instalação pelo Serviço de Inteligência americano de escutas na sede do partido rival.
Fardo do homem de letras
O jornalismo-como-missão na análise de Bradlee
A parte pessimista e a otimista da análise de Bradlee parecem não se concatenar, afinal se os jornais estão cada vez mais fortes e os leitores mais consciente, como os políticos se sentem muito mais a vontade para mentir? Esta inconsistência parece não ser suficientemente explicada por ele, mas indica de forma nítida que as coisas não estão tão bem como no quadro pintado por ele.
Ainda sobre as palavras de Bradlee é necessário observar que para ele um bom jornal é sobretudo um somatória de opções pessoais. Essencialmente a opção do jornalista em enxergar a sua carreira como uma missão, sacerdócio destinado a reunir pessoas que esperam transformar o mundo em um lugar melhor para todos. Ele chega até mesmo a definir alguns termos do que considera "um lugar melhor" evocando em especial a instituição de um estado democrático e liberal de tipo ocidental com forte presença da sociedade civil. Este "fardo do homem de letras"- parodiando Kipling - seria essencial - o que é incontestável - e quase suficiente - o que é inadmissível - para se produzir um bom jornalista.
É também a opção da editoria em selecionar, formar e dirigir esses "jornalistas-com-uma-missão" e da empresa em si de manter-se como "um jornal de qualidade" ao invés da tentação mórbida de aderir ao lucro fácil e imediato da Yellow Press. Assim para ele ser um bom jornalista ou um bom jornal é quase uma decisão apenas de si próprios, dependendo apenas da vontade individual.
Cercas de arame farpado
Será realmente o "jornalismo de qualidade" uma opção possível
Adorno diz no seu O Fetichismo na Música e a Regressão da Audição que a separação entre a música séria e a música ligeira, na era da Indústria Cultural, é mais uma estratégia de marketing destinada a valorizar alguns produtos do que uma divisão de fato. Assinala ele: "quanto mais premeditadamente os organismos dirigentes plantam cercas de arame farpado para separar as duas esferas da música, tanto maior é a suspeita que sem separações os clientes não poderiam entender-se com facilidade".
Aplicado ao jornalismo tal como o descreve Bradlee - dividido em um "jornalismo de qualidade" e o resto - o conceito de Adorno parece ser eficiente. É parte da lógica do sistema capitalista que a notícia seja transformada em mercadoria, portanto produto de consumo e não valor de uso. Como mercadoria ela não tem apenas um valor como bem de consumo material, mas também um valor simbólico, como o do prestígio associado a ser leitor - ou ainda mero assinante - deste ou daquele veículo.
A necessidade de se apresentar como um "jornal de qualidade" parece ser uma opção motivada menos pelas opções dos atores, dos jornalistas-com-uma-missão que trabalham nele e dos diretores sensíveis a este "fardo do homem de letras", do que da ótica de mercado de se oferecer um produto diferenciado que agrega um valor que é sobretudo simbólico. A própria insistência em Bradlee em se distinguir o "jornalismo de qualidade" do resto, de erguer cercas de arame farpado como diz Adorno, demonstra que a divisão não é tão clara assim na mente do público. As dificuldades financeiras do Post, por sinal, atestam em parte esta questão.
A pena invisível do mercado
Uma contestação da visão de "bom jornalismo como opção" de Bradlee
A questão essencial é que apresentar um jornal de qualidade não é uma opção pessoal, ainda que esta compreensão dos jornalistas seja essencial à produção de um jornal de verdade e à construção de um jornalismo de verdade. Como empresa capitalista, o jornal é incapaz de fugir à lógica do mercado, às suas estratégias e à massificação induzida por ele porque o sistema em si não vê o jornal como um produto de natureza especial, mas apenas como mais uma mercadoria.
As evidências deste processo podem ser facilmente percebidas pelas transformações que tem agitado a imprensa nas últimas décadas, todas elas sem exceção visam transformar o processo de produção jornalística em um processo industrial mais próximo de outro qualquer quanto possível, muitas vezes até desrespeitando as especificidades mínimas do setor. Não é raro ouvir em entrevistas diretores, editores e outros profissionais ligados ao jornalismo - e em especial à direção dos órgãos de imprensa - referirem-se às suas publicações como "produto", última moda do jargão que revela muito sobre a visão de jornalismo destas pessoas.
Sentem-se inclusive orgulhosos, de encher a boca, antes de mencionar "nossos produtos", revelando o quanto desta mentalidade do jornal-mercadoria já está arraigada entre eles. O velho Mr. Boot dificilmente teria alguma utilidade nas redações modernas nas quais se procura um editor não que seja um "técnico de time" - como Bradlee descreve - mas sobretudo um gerente. E gerente não só no sentido de gerente de RH, mas gerente no sentido fabril mesmo do termo.
Conclusões
Cínico ou heróico?
Fica a dúvida se Bradlee é algo como um Quixote ingênuo que enxerga o mundo e a sua profissão com a pureza de seus olhos de herói louco, ou se age de forma cínica defendendo o seu produto diferenciado com um discurso elitista e voluntarioso. Se quando ele diz que rejeita as fórmulas mágicas de marketing para avaliar e modificar o jornal porque diz acreditar que o papel do "velho editor ranzinza" é essencial para se definir o que é notícia, fala a sério ou apenas levanta mitos que justifiquem o status do seu veículo.
É evidente que a ingenuidade não é fácil de se encontrar em nenhum jornalista, ainda mais em um com tanto prestígio e experiência como Bradlee, mas isto não significa que até ele mesmo pode agir sinceramente, mas a pena invisível do mercado o dirige ao encontro das tendências do jornal-mercadoria.
De qualquer forma, é evidente que a presença deste Mr. Boot contemporâneo é uma contribuição significativa a qualquer veículo, uma salvaguarda da sua credibilidade e um alento para os novos profissionais que compartilhem da visão dele de jornalismo-como-missão. Neste sentido é quase irrelevante se a busca de um produto de qualidade é sincera ou a expectativa de agregar valor simbólico a um jornal-mercadoria.
No Brasil a imprensa tem se demonstrado sequer capaz de chegar a este ponto, apresentando uma queda constante do padrão de qualidade e sendo apenas capaz de enxergar o "produto"- como os próprios se definem. Em um ambiente deste é inevitável que - como diz Balzac - os talentos sejam aviltados pelo cinismo.

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