Eugenia e outras bobagens perigosas

Eugenia e outras bobagens perigosas


"Sede homens, sim, e não obtuso gado" (Dante, Paraíso V)


Alexandre Gomes

A eugenia - tentativa de "melhorar" a raça humana limitando a reprodução aos "melhores" homens e mulheres - é um fantasma que periodicamente assola a mentalidade ocidental desde os antigos gregos. Em artigo anterior já havia mencionado o quanto a eugenia de Platão o ligava até mesmo aos piores momentos do pesadelo do Brave New World.
A eugenia é um perigo, mas também uma grande bobagem porque em geral visa só os aspectos aparentes do homem, em especial as características físicas. Nem sempre, porém, elas se devem a herança genética e, mais grave, o que fez o homem ser verdadeiramente um homem não foi nunca os músculos ou a beleza, mas sim a inteligência. Fosse o australopithecus mais forte e talvez ele nunca tivesse se transformado no homem, afinal a inteligência surgiu para compensar todas estas fraquezas daquele macaco das savanas.
Mas a eugenia, a despeito de ser uma bobagem, é um grande perigo. O horror nazista demonstra isto com límpido terror. Malgrado sua imbecilidade teórica, a eugenia é a racionalização de um dos sentimentos mais típicos do homem, aquele sentimento de repulsa à alteridade que faz eternamente o homem tentar colocar o seu grupo no centro do mundo e negar aos demais grupos o título de "humano".
Há algum tempo mencionei que por detrás de toda a alucinada paranóia do Unabomber - o terrorista anti-tecnológico que assustou a comunidade científica americana há alguns anos - havia alguns raciocínios que assustavam pela coerência. Um desses laivos de análise cruel mas exata dizia respeito justamente à biotecnologia. Para o Unabomber o grande risco da manipulaçõa genética era que ela, uma vez aceita, tendia a deixar de ser optativa para se tornar compulsória.
Dizia ele que aos poucos a adoção de órgãos e tecidos melhorados geneticamente daria a seus possuidores uma vantagem tal sobre os demais que se passaria a depender deles de forma inevitável. O homem-máquina seria tõa superior ao homem-homem que só quem não tivesse meios abriria mão de aprimorar-se.
O filósofo alemão Peter Sloterdijk - enfocado pelo caderno Mais da Folha de São Paulo deste domingo - defende um ponto de vista oposto, mas que leva a conclusões extremamente semelhantes de inevitabilidade da manipulação genética. Ainda que a longa entrevista fale muito pouco sobre seu ponto de vista - mais preocupado em criticar Habermas e a Escola de Frankfurt - é possível detectar alguma coisa da essência de sua mentalidade.
Diz ele que a manipulação genética é inevitável e o homem jamais deixará de utilizar as mais poderosas ferramentas de eugenia jamais disponibilizadas. Resta portanto à humanidade apenas o papel de estabelecer um código de ética da questão que limite a operacionalização da manipulação genética.
Correndo o risco de ser leviano, já que desconheço em profundidade o trabalho de Sloterdijk, a idéia em si parece não se sustentar por si mesma. Se a humanidade não será capaz de deter a utilização das biotecnologias - em especial quanto à manipulação genética - parece improvável que será capaz de mantê-la dentro de limites claros.
Diz ele que a inevitabilidade da aceitação destas tecnologias beneficia-se do assunto não ser trazido às claras. Enquanto persistir a recusa, diz ele, não haverá qualquer forma de controle social sobre as experiências na área. O reconhecimento - portanto legitimação - destas experiências parece não melhorar muito a situação do problema, ao contrário do que diz Sloterdjik.
Enquanto este tipo de experimento continuar banido haverá sempre uma oportunidade de punir transgressores e evitar abusos, uma vez legitimado só se pode imaginar que os limites serão cada vez mais ampliados, a cada novo avanço a tolerância ficando mais elástica. Daí ao mundo do Unabomber no qual os melhoramentos genéticos tornam-se compulsórios é um passo.
A única chance da humanidade recriar de forma mais terrível - porque viável e real - os velhos pesadelos autoritários eugênicos - que desde Platão atormentam o Ocidente - é o banimento completo deste tipo de experiência, a manutenção dos mesmos na condição permanente de clandestinos sujeitos à perseguição tanto oficial quanto da opinião pública. Se isto, como avalia o filósofo alemão, não for capaz de evitar de vez as experiências, ao menos limitará o seu desenvolvimento e se poderá esperar um dia que o homem, mais sábio, já não se empolgará por este tipo de experiência.

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