64: nunca mais!
64: nunca mais!
Golpe realizado em nome da democracia abriu espaço para a ditadura
Alexandre Gomes
Alguém já disse que o golpe militar que completa hoje 35 anos é um dos maiores paradoxos da história brasileira. Para justificar a ação falou-se em preservação da democracia - mas implantou-se uma ditadura - falou-se em defender a iniciativa privada - mas implantou-se um regime dos mais estatizantes - falou-se de proteger a soberania nacional contra a ameaça de controle por uma potência estrangeira - mas colocou-se as rédeas do poder nas mãos de outra potência, ocorrido em 1º de Abril decidiu-se comemorar em 31 de Março para evitar o "dia da mentira".
Até hoje na Alemanha não se encontram quem foram os populares que apoiaram o regime nazista e aplaudiam Hitler nas manifestações grandiosas. No Brasil, com raras exceções, também não é fácil encontrar quem tenha apoiado o golpe militar, ao menos sem que sejam feitas restrições. Até lideranças que enalteciam a "Redentora" hoje evitam falar no assunto.
Mas não é nas lideranças que se deve buscar a raiz do golpe, mas no cidadão comum que aceitou passivamente a tomada de poder pelos militares. De 28 de março de 64, quando uma multidão se aglutinava pelo centro de São Paulo na Marcha com Deus pela Família até 29 de março de 68 quando milhares foram às ruas protestar contra a morte do estudante secundarista Edson Luis ou à Passseata dos Cem mil em 26/6.68 há a distância do sonho ao pesadelo.
O endurecimento do regime, que só aconteceu 4 anos depois do golpe, com o AI-5, demonstrou que a fase de apoio popular já havia arrefecido, mas já era tarde demais, o poder militar já estava consolidado. Nesta altura do campeonato boa parte das lideranças civis do movimento já tinham sido afastadas do centro do poder. Algumas das mais proeminentes delas, como Carlos Lacerda - grande tribuno do golpe - já havia até mesmo passado para a oposição e articulava a Frente Ampla.
A partir de 68 o regime militar evolui para uma ditadura agressiva. Na outra ponta, setores da esquerda sem espaço para manifestar seu descontentamento decidem partir para a luta armada. Em um círculo vicioso a luta armada acaba por dar aos militares uma justificativa forjada para um endurecimento ainda maior do regime.
De uma forma geral a população permanece alheia a tudo isto, controlada pelo medo, finge acreditar no que diz a imprensa que todos sabem censurada. Poucos anos depois, no início da década de 70, a expansão do processo de industrialização marca a entrada da classe media no mundo do consumo e narcotizadas pela ascensão estes setores voltam a dar apoio e legitimidade ao regime.
O "Milagre Brasileiro" - catalisado pela conquista da Copa do Mundo em 70 e por Campanhas como "Brasil: ame-o ou deixe-o" (logo ironizada com o acréscimo: "o último a sair apague a luz") davam uma sustentação ideológica ao Regime. A erosão de conquistas sociais, o arrocho salarial, o aumento da já péssima distribuição de renda era compensado por uma sucessiva ampliação do padrão de vida da classe média.
Neste período é localizada e exterminado um dos focos da guerrilha rural, A guerrilha do Araguaia no Sul do Pará. Ainda que também sem condições logísticas de causar uma séria ameaça ao regime os guerrilheiros do Araguaia, ligados ao PcdoB, conseguem atormentar os militares por dois anos com apenas cerca de 60 militantes que enfrentaram cerca de 15 mil soldados.
Prevenidos os militares nunca mais seriam pegos de surpresa, foi depois do Araguaia que o Exército resolveu formar tropas especializadas em combate na selva e passou a cultivar um relacionamento mais amigável com as populações ribeirinhas da Amazônia.
Aos guerrilheiros sobrou a dúbia honra de terem sido incorporados ao folclore da região como entidades da religião local e heróis míticos. Isto os que morreram, porque os que escaparam carregaram ou os traumas da tortura ou da suspeita de denúncia contra os colegas.
A ascensão de Ernesto Geisel mostra uma certa guinada na política do regime - que sofria cisões internas - e até certo ponto uma perda de influência da "linha dura" - os "gorilas"- no centro do poder. O grande mago por detrás do planejamento estratégico desta fase do regime militar, Golbery, parecia já estar preparando terreno para uma distensão, inclusive contando com o apoio de peritos em formulação de políticas enviados pelos Estados Unidos.
A grande questão, contudo, era distender sem perder o controle da situação e assegurando que os militares continuariam mantendo uma razoável fatia do poder. A questão se agravava com as sucessivas vitórias eleitorais do PMDB, apesar de todas as mazelas, que acabaram obrigando ao fechamento do Congresso e à instituição dos Senadores Biônicos, única forma de Geisel fazer o sucessor, ainda que por via indireta.
Figueiredo, último presidente militar, assistiu o ocaso do regime militar. A opinião pública não atendia mais à propagando do regime e o "milagre" já estava exaurido. A inflação e o arrocho salarial chegaram ao limite e apesar de toda a repressão ressurge o movimento sindical, marcadamente com as greves do ABC que revelaram um líder que seria importante na fase da democratização: Lula.
O fim do AI-5, a anistia, as eleições diretas para governador e depois para prefeito das capitais foram arrancadas a um duro custo por uma sociedade civil cada vez mais exigente. Logo depois veio a conquista do direito de greve e um relaxamento da camisa de força dos sindicatos. Mas a população mesmo indo às ruas em massa não conseguiu seu objetivo principal: eleições diretas para presidente.
Ainda assim o Colégio Eleitoral serviu de instrumento à transição, mais pacífica e controlada, para o regime democrático através - mais uma vez na história do Brasil - de um amplo acordo entre as elites.
Até que ponto teria ido a influência americana no golpe é ainda um ponto obscuro, mas se sabe que haviam profundos interesses não só políticos como econômicos dos Estados Unidos no golpe. Tudo sugere que a justificativa ideológica de "proteger o mundo livre da influência do comunismo" não era nada mais que uma cortina de fumaça para encobrir a reação americana às nacionalizações de serviços e explorações comerciais que tinham sido feitos ou eram planejados.

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