Ágora Eletrônica ou teletela cibernética?

Ágora Eletrônica ou teletela cibernética?

As implicações políticas das NTICs na sociedade informacional

 

 

I – Introdução: A Utopia Digital

 

A perspectiva de construção de uma nova Utopia vinda à luz pelo impacto das NTICs – Novas Tecnologias de Informação e Comunicação – tem sido umtema recorrente nas mais variadas esferas e particularmente importante para Manuel Castells na medida em que este – em A Sociedade em Rede – define e traça as delimitações da sociedade pós-industrial que ele chama de informacional. Fora da agenda acadêmica também tem sido traçadas inúmeras análises vindas de sujeitos diferentes – não raro de interesses antagônicos – do processo político tentando não só imaginar mas construir estes diversos cenários futuros de intercalação de sistema político e NTICs, não raro utilizando a ideia de construção de uma “Utopia Digital” com termos simbolicamente semelhantes.

A ideia de “Utopia Digital” é particularmente apropriada pois invoca em termos simbólicos uma certa perspectiva idílica, quase milenarista, há muito já desgastada pelo processo político e histórico concreto, resignificando-a de forma novamente plausível como cenário possível. E, ao mesmo tempo, em sua essência, invoca todas as contradições do predomínio do interesse coletivo e dos “fins elevados” justificando sacrifícios pessoais – em especial o sacrifício da liberdade, individualidade e privacidade – que são a marca “oculta” de todas as Utopias desde a narrativa de São Thomas Morus que cunhou o termo passando por sua predecessora mais antiga – a República de Platão, na qual os governantes podiam trapacear para garantir a “felicidade geral” - e contemporâneas, assim como as distopias que são suas antíteses como o Admirável Mundo Novo e 1984.

Em todas estas construções ideológicas literárias há um profundo desejo de existência de um governo central forte que impõe sua vontade – ainda que seja com as melhores intenções – aos indivíduos para garantir que de fato o bem coletivo seja preservado. Uma das mais relevantes ferramentas para isto é exatamente a redução máxima da privacidade. Morus não poderia ser mais preciso e aterrorizante em relação a esta questão do que neste trecho da Utopia:

Cada um, continuamente exposto ao olhar de todos, se sente na feliz contingência de trabalhar e de repousar, conforme as leis e os costumes do país

Não poderia ser diferente também na medida em que todos os textos “utópicos” - inclusive aqueles que denunciam e temem as utopias como as distopias mencionadas -  foram escritos em períodos de crise profunda provocada pela transição entre um modelo econômico, social e político e outro e portanto no qual os velhos valores já não tem mais força ideológica e os novos são ainda fracos e indeterminados.

A República de Platão – arquétipo de todas as demais – é redigida no momento no qual os valores tradicionais aristocráticos vão sendo definitivamente sepultados pela democracia, ou seja no momento no qual os segmentos urbanos ligados ao seto mercantil ganham hegemonia política – com o suporte das demais camadas não escravas urbanas -  sobre a aristocracia fundiária. Similar a elas as utopias renascentistas como a de Morus e Campanella são uma tentativa de reação dos letrados tradicionais ligados à máquina ideológica feudal – em particular à Igreja – contra a florescente sociedade pré-capitalista e absolutista que está surgindo.

 

II – O nerd e o general

A condenação à plutocracia e o poder arbitrário contido nestas obras – e de certa forma ironizado nas distopias escritas no período crítico do pós-guerra – é reflexo do desejo de volta aos valores tradicionais e de monopólio político de um segmento aristocrático – ainda que de uma aristocracia reconstruída a partir de seu conceito original de “governo dos melhores”. Não é à toa que na Utopia de Morus “reunir-se fora do senado e das assembléias do povo para deliberar sobre os negócios públicos é um crime punido com a morte.”

Assim não é estranho que ressurja em um novo momento de crise e transição a popularidade das Utopias visto que de novo se vive um momento no qual antigos valores perdem eficácia e novos valores ainda não estão suficientemente constituídos.  Esta sociedade informacional, para utilizar o termo de Castells, está marcada por algumas contradições ainda não resolvidas em particular na esfera política onde dois modelos distintos profundamente ligados na própria criação e alicerce desta nova sociedade lutam pela hegemonia.

De um lado existe o aspecto fortemente descentralizado, focado na iniciativa individual e numa perspectiva política libertária que marca a  superestrutura desta sociedade informacional, construiu as bases da sua cultura e valores desde os primeiros passos da sociedade informacional na Califórnia dos anos 60-70. De outro existe um forte aparato infra-estrutural surgido a partir dos modelos militares e depois copiados pelas grandes corporações – notadamente as financeiras que estão fundadas sobre esta sociedade informacional ao mesmo tempo em que seu seu principal sustentáculo – e pelos governos.

O caso chinês – particularmente bem discutido e analisado por Castells por ser o único no qual um modelo estatista foi capaz de ingressar na sociedade informacional produzindo uma transição adequada para o novo sistema produtivo – é bem significativo nesta junção porque foi até agora o único também no qual a dimensão militar-governamental centralizadora tem sido capaz de resolver a contradição pela supressão da dimensão libertária, inclusive com a utilização dos recursos de controle da informação e comunicação desenvolvidos pela produção informacional como meio de sufocar conflitos latentes.

Neste sentido o “modelo chinês” é útil na construção deste continuum de gradações das misturas das fontes e bases do sistema informacional por estar muito próximo do que seria um ponto extremo dos cenários possíveis. Muito menos significativo do ponto de vista econômico e demográfico mas no ponto concreto mais próximo do extremo oposto deste modelo estariam as TAZ – Zonas Autônomas Temporárias – de Peter Wilson e outros segmentos do Situacionistas no qual o elemento organizador/repressor oriundo do complexo industrial-militar foi totalmente eliminado restando só a dimensão libertária e criativa.

É esta contradição das origens que torna possível a existência de dois cenários totalmente distintos na nova estrutura  política que deverá emergir nas próximas décadas como a expressão governamental da economia informacional. Ou se terá algo muito similar ao modelo chinês de utilização estritamente instrumental das NTICs com aplicação maciça dos próprios recursos do sistema para um controle minucioso e brutal da liberdade individual ou se terá uma descentralização do poder de decisão com a extensão do debate, do direito de minoria e da liberdade de expressão até um limite muito próximo ao que era possível chegar nas Assembléias atenienses com dezenas de milhões de pessoas participam do processo político.

O processo histórico tem demonstrado ao longo de todas as transições similares que mesmo que sempre exista algum tipo de mistura e síntese dos cenários possíveis sempre há uma tendência à nova ordem política ser a hegemonia de um deles sobre os demais. Assim por mais variantes que sejam possíveis parece que grande escolha é entre os modelos ideais de Teletela Cibernética – numa referência à utilização das NTICs para o controle minucioso dos cidadãos como no romance de Orwell – ou de Ágora Eletrônica – na reconstrução de uma  forte democracia direta modelada na ateniense a partir dos recursos das NTICs.

 

III - Se a aparência e a essência das coisas coincidissem...

 

Um dos complicadores destes dois modelos possíveis é a intricada complexidade com a qual a ideologia está arraigada nos discursos sobre o assunto. Esta complexidade é natural tendo em vista que a sociedade informacional é fundamentalmente um sistema fundado na produção e reprodução de conhecimento e portanto sua própria essência está ligada a produção e decodificação de símbolos. Também é natural levando-se em conta que transitando de uma velha ordem para a construção de uma nova os universos simbólicos que norteiam os discursos ainda estejam ancorados na supestrutura ideológica do mundo que desaparece e mal se vislumbre ainda a nova realidade que está surgindo. O processo é análogo ao da Utopia de Morus, motivo pelo uqal se dedicou a introdução à Utopia original, no qual também a velha ordem feudal tenta se reconstruir ideológicamente como nova e reformadora para antepor-se à ordem capitalista que surgia.

Desta forma não surpreende que elementos com conteúdo simbólico aparentemente progressista como “direitos coletivos”,  “controle social” e similares sejam usados como esteios da construção da “teletela”, da solução conservadora para as contradições. Da mesma forma é significativo que mesmo as grandes corporações no centro desta sociedade informacional ao mesmo tempo em que asseguram um controle cada vez mais preciso e estrito sobre volumes cada vez maiores de informações a serem processadas adotem nas suas políticas internas não só processos de decisão mas mesmo normas de conduta totalmente libertárias. Já se tornou parte da cultura – e mesmo do folclore – o ambiente aprazível, informal e “divertido”  dos centros corporativos mais relevantes como a Microsoft, bem como a tentativa de implantar padrões de comportamento profissional e pessoal mais “apresentáveis” já levou à falência ou a beira da falência empresas-símbolos do processo informacional como a Atari.

Tais contradições não são casuais, nem mesmo apenas fruto do processo histórico. Elas estão relacionadas à essência mesmo do processo de produção fundamental do sistema informacional que é a produção do conhecimento. Esta produção, ao contrário de todas as demais, não pode ser massificada e padronizada no seu processo de criação, embora o possa ser nas suas fases de processamento da informação, distribuição e consumo. É da sua natureza ser produzida por um segmento de elite – no sentido estrito e original do termo – que pode ser ampliado pela difusão da educação e cultura através de políticas sociais, menos desperdiçado através de políticas públicas que reincorporem segmentos marginalizados, melhor desenvolvidos através de sistemas de igualdade de oportunidades, mas sempre será, por definição dependente de um segmento minoritário da população, capaz de enxergar mais longe e mais profundo e criar o novo e portanto dotadas de um profundo senso de individualidade.

Ao mesmo tempo  o consumo em massa desta produção simbólica produz elementos também contraditórios em sua natureza na medida em que as próprias modificações na linguagem e código introduzidas por elas pode tanto elevar ou rebaixar os padrões culturais e educacionais. Aqui antepõem-se duas visões clássicas diferentes desta questão do código: a de castells e a de MacLuhan. Para Castells não há diferença implícita entre a comunicação virtual e todas as formas anteriores de comunicação visto que em todas elas na verdade há a mediação através de símbolos e portanto todas semrpe foram virtuais. Para MacLuhan “o meio é a mensagem” e portanto uma alteração no meio implica em um sentido diverso que delimita e determina o conteúdo da mensagem.

Estas visões diversas não são excludentes, mas não deixa de ser um ponto favorável a MacLuhan que a expressão mediada pelas NTICs que permite – e ao permitir praticamente condiciona e determina que assim seja – a comunicação utilizando recursos multimídia, hipertexto e outros recursos audio-visuais muda de forma expressiva seu conteúdo ao menos enquanto produto para consumo de massa. Tal como os vitrais das catedrais góticas serviam para que a escassa minoria dos letrados religiosos que dominavam o aparelho de reprodução ideológica se comunicassem com uma massa iletrada também os recursos multimidia tornam-se um recurso para a comunicação com uma massa jovem com “letramento” decrescente através da imagem, som, vídeo e outros recursos que dispensam a linguagem escrita.

Este iletramento de segmentos crescentes da população traz uma contradição relevante para o sistema informacional que será determinante para qual os cenários – Teletela ou Ágora – emergirá.

De um lado o baixo letramento das massas significa – na melhor exemplificação de que o meio é a mensagem – um predomínio do emocional sobre o racional, do impacto instantâneo das imagens sobre a reflexão estruturada da escrita e leitura. Esta “Revolução Cultural” - similar em essência a cometida pela China maoísta – tem grande impacto na preservação e estabilidade do sistema visto eliminar os elementos de contradição e reflexão e, como a Novilingua orweliana impedir até mesmo que a oposição ao sistema seja concebida em pensamento.

Ao mesmo tempo, contudo, a disseminação desta tipo de cultura iletrada do “ninguém lê mais” apresenta um risco ao insumo fundamental do processo de produção da sociedade informacional que é o recurso humano criativo porque ao valorizar o iletramento e o emocionalismo e restringir a reflexão também condena a esta servidão simbólica parcelas da população que seriam necessárias a produção do conhecimento diminuindo as possibilidades de um recrutamento essencial à evolução do sistema.

Agrava-se esta questão na medida em que a massificação intelectual da sociedade em nome de interesses coletivos tende a excluir as fortes vontades individuais e anseios de contestação e renovação que estão diretamente ligados ao processo de produção do conhecimento – que é sempre uma produção contra o que está estabelecido. Assim os recursos humanos essenciais não só seriam limitados como em muitos casos estariam contra o sistema, enquanto a própria noção de Utopia depende de ausência de conflitos e domínio da conformidade.

 

IV – Conclusões: Massa e elite

 

Castells enxergou um acirramento da divisão social pelo achatamento dos trabalho médios tanto pela degradação da maioria como pela ampliação do estrato superior.  A tendência é plausível na medida em que a elevação do nível médio de educação e cultura pelas políticas sociais, pela eliminação dos bolsões de exclusão pelas políticas sociais e a ampliação do acesso às NTICs com a sua universalização em talvez só uma geração – visto que Castells avalia que hoje o maior obstáculo às NTICs é apenas geracional e será eliminado quando a geração pré-informacional que resiste a elas desaparecer – amplia de forma muito significativa os padrões das massas. Também em um momento de franca expansão e carência de recursos humanos é natural que a ideia de carreiras abertas ao talento se multipliquem e as chances de ascensão sejam maiores aos dotados de habilidades especiais.

Também é relevante que a  constituição de uma “Industria Informacional” similar à “Indústria Cultural” tal como definida pela Escola de Frankfurt – em especial por Adorno e Horkheimer, ou seja a transformação de bens culturais em mercadorias de baixa qualidade pasíveis de serem produzidos em massa – enfrenta um obstáculo criado pelas próprias NTICs que é a possibilidade de produção não alienada – ou sjea um mesmo indivíduo ou grupo é capaz de produzir conehcimento em todas as fases da produção até a distribuição/publicação.

Da mesma forma a substituição da produção de conhecimento pela reprodução de ideologias não é um objetivo condizente com a lógica do sistema de produção informacional, o qual depende de uma constante renovação, aperfeiçoamento e criação em ciclos cada vez mais curtos para sustentar-se. A transformação de cientistas e intelectuais em meros ideólogos não é um objetivo que o sistema seja capaz de conceber por mais relevante que seja como meta para sua preservação porque o processo de produção informacional requer a produção constante de conhecimento.

Assim, salvo em condições de estrito e pesado controle governamental, tal como na China, é difícil imaginar a não existência de um grau elevado de produção de conhecimento que não implique em um anseio crescente por liberdade, tanto política quanto individual. Mesmo na China isto só foi possível em função de dois fatores, de um lado a produção de conhecimento em outras regiões, passível de ser adquirido e de outro pela constituição de uma casta altamente privilegiada de empreendedores internamente.

Se o Estatismo chinês conseguiu êxito onde o soviético falhou – e esta falha custou sua sobrevivência como aponta Castells – foi pela capacidade não de manter-se como estatismo mas pela capacidade de transformar-se em um capitalismo informacional integrado a economia mundial, ainda que sob controle estatal na esfera política. A contradição e fraiglidade deste modelo já foi apontada por muitos desde Castells, mas a China tem resistido a todas as previsões de implosões da contradição entre economia empreendedora e fechamento político.

No resto do mundo tem sido apontada muito mais uma apatia política com um desinteresse da maioria dos segmentos pela política – com as decisões políticas sendo crescentemente apropriadas pelos aparatos tecno-burocráticos, como aponta Giovanni Sartori – do que uma ampliação da participação no processo decisório que já seria permitido pela utilização das NTICs.  Apenas em parte este desinteresse é contrabalançado por um crescimento do ativismo – notadamente de minorias políticas, religiosas, étnicas, demográficas – e da produção independente de informação e notícias que ganha nova dimensão e amplitude através destas novas tecnologias. O meio político tem se esforçado por estimular e copiar este ativismo com poucos êxitos notáveis e muitos fracassos retumbantes, quase sempre marcados exatamente pelo que se apontou acima acima como “método do vitral gótico”, ou seja pela tentativa de comunicação emocionalizada fundada em recursos multimídia e não na persuasão.

As apostas parecem apontar para um cenário mais próximo daquele da Teletela Cibernética  - com as NTICs sendo usadas para manipulação das massas e controle estrito dos indivíduos – do que para uma Ágora Eletrônica – com a disseminação do poder de decisão e incorporação de parcelas cada vez maiores de uma população mais culta e educada no debate dos temas públicos. Esta perspectiva pessimista só é abrandada pela necessidade constante e crescente de cérebros como insumo fundamental do capitalismo informacional, necessidade esta que em algum grau impediria a transformação da produção de conhecimento em reprodução de ideologias.

 

 

 

 

 

 

 

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