“Por desconhecer tudo isso, que é elementar, o pacifismo tornou sua tarefa demasiado fácil. Pensou que para eliminar a guerra bastava não fazê-la ou, em suma, trabalhar em que não se fizesse. Como via nela apenas uma excrescência supérflua e mórbida aparecida no trato humano, creu que bastava extirpá-la e que não era necessário substituí-la. Mas o enorme esforço que é a guerra, só pode ser evitado se se entende por paz um esforço ainda maior, um sistema de esforços complicadíssimos, e que, em parte, requerem a venturosa intervenção do gênio. O outro é puro erro. O outro é interpretar a paz como o simples vazio que a guerra deixaria se desaparecesse; portanto, ignorar que se a guerra é uma coisa que se faz, também a paz é uma coisa que importa fazer, que há que fabricar, pondo na faina todas as potências humanas. A paz não "está aí", simplesmente, pronta para que o homem a goze. A paz não é fruto espontâneo de nenhuma árvore. Nada importante é apresentado ao homem; pelo contrário, tem ele de fazê-lo, de construí-lo. Por isso, o título mais claro de nossa espécie é ser homo faber. “
(Ortega y Gasset, A Rebelião das massas)
Já disse em inúmeras oportunidades que os melhores livros contra a guerra foram os escritos por soldados. Nada de Novo no Front escrito por um ex-soldado de pouca instrução é muito mais convincente do que mil tratados pacifistas calmamente escritos em gabinetes refrigerados de ministérios. Vivemos numa era em que boas intenções e más ações convivem e se misturam não só por hipocrisia mas também pela falta de coragem de pensar.
O discurso pacifista parece ser algo impossível de se atacar, afinal quem quer a guerra e todas as tragédias que ela traz? A questão, como bem aponta Ortega y Gasset, é que sob o rótulo de pacifismo combinam-se as mais várias visões de mundo, boa parte delas equivocada ao menos em alguns pontos.
Ao cmeçar a escrever sobre isto lembrei-me que o próprios nme do blog foi inspirado pela leitura de umas páginas de Guénon, no Simbolos da Ciência Sagrada, no qual fala-va sobre a o símbolo da Espada no Islam, que representa a luta pelo retornoà unidade e ao equilíbrio, tanto no sentido macrocósmico como naquele sentido que é mais relevante, que é o microcósmico, a jihad interior do homem no sentido de encontrar a harmonia. Por sinal é exatamente o que simboliza a letra árabe Alef em forma de espada sobre um eclipse que figura no logo do blog, equivalente da espada de madeira que os imans usam nos sermões simbolizando justamente este poder da palavra.
Como vivemos numa época de leniência, não de esforço, é natural que o esforço de superação não seja bem visto e que portanto qualquer ideia de solucionar conflitos seja relegada. Preocupa-me muito, por sinal, que todo o pensamento pacifista – com o qual nã deixo de simpatizar – acabe por enveredar pelo caminho da negação de que há batalhas que devem ser travadas. É esta identidade entre paz e “não fazer nada” de que fala Gasset no trecho que transcrevo na epígrafe que me apavora.
Estes dias brincava sobre a propaganda de um banco no qual um menino judeu e um israelense rompem as barreiras do conflito secular jogando bola: depois um entra pro Gaviões da Fiel e o outro para a Mancha Verde e se matam sem sentido algum. A brincadeira me remeteu a um colega de faculdade ao qual tentei explicar sem sucesso o conflito palestino mas que dias depois contava extasiado que tinha participado de uma briga de torcida e batido um bocado em alguns torcedores do time contrário.
A dimensão macrocósmica deste enaltecimento da paz ignorando a dimensão histórica, sociológica e geográfica dos conflitos e colocando a todos como ruins é preocupante porque tende a perpetuar o desequilíbrio e destruir a justiça. Neste sentido achei excepcional o filme Avatar, enorme evolução, por exemplo, a relação ao colonialista Pocahontas, mas fico devendo ainda mais alguns dias um comentário sobre o filme que quero ver de novo antes de analisar. Equiparar todos os conflitos com cara de asco à guerra significa tornar iguais coisas bem distintas, pesar com o mesmo peso o ávido financista ganancioso por petróleo, o vil mercenário e o povo que luta contra a tirania.
Porém é na dimensão interior que o avanço da mentalidade pacifista vazia mais me preocupa neste momento. É claro que a meta de cada um deve ser procurar a paz interior, mas o pressuposto desta paz interior não é deixar tudo correr e fazer vista grossa às próprias ações ou esforçar-se pelo aperfeiçoamento. A opção pela paz não pode ser o efeito da pusilanimidade de enfrentar os conflitos – e Gandhi destacou que a coragem era ainda mais necessária ao pacifista que ao guerreiro enquanto Jesus disse que vinha trazer a espada e não a paz – mas pela luta com serenidade, sem ódio mas com firmeza e decisão.
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