Cinzas da Cidade

Cinzas da cidade

 

Para Sampa em seu 457o. Aniversário

 

É fácil admirar o colorido,

Mas seus tons de cinza,

Feitos de chumbo e carvão,

Só podem ser apreciados

Em movimento.

 

É fácil apreciar o silêncio,

Mas seus sons de mil vozes,

Feitos de sussurros de cobiça ou gritos de miséria

Só soam como música

Em movimento.

 

Esta sua fuligem não é como a poeira dos tempos

Cobrindo ruínas outrora sagradas,

Esse seu manto cinza é cosido pela velocidade

Lembrando como tudo que é moderno

Termina em cinzas.

 

Se a metafísica é uma trilha na floresta antiga

Pela qual se anda a pé e com vagar

Então a dialética é este explodir de sons

da sua multidão tropeçando em si mesma.

Pela qual atravessamos rápidos e atentos.

 

Mas para nunca esquecer,

Mesmo os que falaram daquilo que é eterno

E imutável, insuflaram ou condenaram o progresso,

Só puderam fazê-lo nas cidades que eram

Como você.

 

É cinza porque na sua paleta

Só há Luz e Trevas

Misturadas de todas as formas.

Suas cinzas são o que restou do homem,

E ninho aonde ele renasce todos os dias.